António Costa arma PS para combater Passos e Portas

Cavaco Silva marcou nova reunião com António Costa após receber a carta com as respostas às suas questões

António Costa já respondeu a Cavaco Silva, já tem o seu governo na cabeça (e quase no papel), mas não quer desguarnecer o combate político no Parlamento, que se antevê duro, com Pedro Passos Coelho (em estreia) e Paulo Portas (de regresso) na oposição: são quatro pontas de lança para jogar ao ataque e amparar os golpes na defesa ao futuro executivo do PS.

O secretário-geral socialista respondeu - ontem, ao fim da tarde, com entrega em mão em Belém e sem revelar o conteúdo -, à carta que o Presidente da República lhe tinha entregue de manhã, num encontro em que Cavaco impôs seis condições a Costa para o líder do PS "desenvolver esforços tendo em vista apresentar uma solução governativa estável, duradoura e credível".

"Forte incidência parlamentar"

Na Assembleia da República ficam Carlos César, Ana Catarina Mendes, João Galamba e Pedro Nuno Santos (o último com funções de governante, na pasta dos Assuntos Parlamentares), quatro nomes de peso da atual estrutura socialista que funcionarão como os pivôs de António Costa.

O presidente do partido e líder da bancada do PS foi já apresentado por António Costa (logo na primeira reunião com os novos deputados do partido) como o "n.º 2 do governo" por causa da "forte incidência parlamentar" que terá um governo do PS. Carlos César vai desempenhar assim uma "função completamente diferente" do que tem sido até aqui o trabalho dos líderes parlamentares socialistas, agora mais concentrado nas negociações com as outras bancadas.

Já Ana Catarina Mendes foi escolhida como a "primeira vice-presidente" da bancada do PS e tem sido ela a dar a cara no final das reuniões da conferência de líderes, marcadas por uma inusitada tensão entre a coligação de direita e os partidos de esquerda. Mais: no dia em que António Costa for indigitado primeiro-ministro, o líder socialista quer que a líder da distrital de Setúbal seja a secretária-geral adjunta do PS.

João Galamba fará a marcação cerrada a Passos Coelho e Portas. O atual secretário nacional com responsabilidade pela comunicação será o pivô desta estratégia socialista. Como porta-voz do partido não dará tréguas aos líderes do PSD e do CDS nas investidas que estes façam contra o governo socialista apoiado pelas restantes bancadas da esquerda e, até ver, pelo PAN.

A carta de Cavaco Silva

O Presidente da República chamou ontem o secretário-geral do PS para lhe pedir o que Cavaco Silva tinha solicitado, dois dias depois das eleições, a Passos Coelho: que procure uma solução de governação para quatro anos.

Ao contrário daquele dia em que recebeu Passos Coelho, desta vez o o Chefe do Estado optou por entregar um documento escrito com as suas condições, sem se dirigir ao país, como então fez.

O Presidente encontrou seis "questões que, estando omissas nos documentos, distintos e assimétricos", assinados por PS, BE, PCP e PEV, "suscitam dúvidas quanto à estabilidade e à durabilidade de um governo minoritário do Partido Socialista, no horizonte temporal da legislatura".

Costa fechou a resposta a Cavaco ainda antes da refeição (almoçou tarde, pelas 14.30, nas Amoreiras) e afinou o texto durante a tarde. No entanto, o conteúdo da carta do líder socialista não foi divulgado, para marcar a diferença em relação a Belém. Ainda o carro de Costa estava a deixar o Pátio dos Bichos e já a Presidência da República disponibilizava no seu site o "documento entregue ao secretário-geral do PS".

Esquerda aguarda e critica

Cavaco não pediu novos acordos à esquerda. Para o Presidente bastava a "clarificação formal de questões" por António Costa - e PS, BE, PCP e PEV tiveram o mesmo entendimento, dispensando novos encontros entre si (ou grandes diligências das respetivas direções).

Aliás, o BE, num comunicado muito minimalista, limitou-se a dizer que aguardava "o desenvolvimento dos contactos entre o Presidente da República e o secretário-geral do Partido Socialista e os passos para uma rápida indigitação do novo primeiro-ministro".

Os ecologistas do PEV falaram em condições "abusivas e totalmente inaceitáveis" e o líder comunista, Jerónimo de Sousa, defendeu que "não há nenhuma razão para que o Presidente, perante a inequívoca e pública afirmação de quatro partidos que dispõem da maioria dos deputados na Assembleia, venha exigir condições".

A carta foi devolvida a Cavaco, que recebe esta manhã António Costa, que deverá ser indigitado primeiro-ministro. Resta apenas saber quando.

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