Cortes nas administrações... não nos profissionais

O bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, criticou hoje as propostas de cortes orçamentais na área da Saúde, salientando que é nas administrações hospitalares que devem ser feitos os maiores esforços e não nos profissionais de saúde.

'Todos temos consciência que é necessário fazer cortes e evitar desperdícios, mas se calhar temos de começar a pensar se não é desperdício todos os actos administrativos, de burocracia e a pletora de administradores que pululam pelos hospitais e que não vemos o interesse directo do que estão a executar', afirmou, à margem de uma reunião da Associação Nacional de Estudantes de Medicina no Estrangeiro.

O bastonário dos Médicos, que disse que a proposta de reorganização hospitalar - entregue pelo grupo de trabalho constituído para o efeito - 'não é um documento assim tão importante para ser comentado antes de a Ordem dos Médicos o fazer formalmente', fez uma analogia para explicar o seu ponto.

'Se eu tiver um automóvel e não tiver dinheiro, posso evitar um motorista e uma pessoa para me abrir a porta, mas não posso evitar cortar dinheiro na gasolina, senão fico com o carro parado à porta', diz Pedro Nunes.

Assim, 'cortar não é nos medicamentos ou nos hospitais, mas no que é secundário, que é a reflexão sobre a forma de organizar o hospital quando há doentes para tratar e não há dinheiro para medicamentos'.

Crítico do modelo de gestão empresarial, Pedro Nunes afirma que 'a cultura gestionária que foi implementada é um enorme desperdício de tempo' e diz que, 'na ânsia de obter informação, estamos a criar sistemas muito complexos' que prejudicam o trabalho dos profissionais de saúde.

'Há um relatório que diz que, nos Estados Unidos, 42 por cento do tempo é gasto em administração, e Portugal aproxima-se muito desse número', lamenta o bastonário, que não poupa críticas ao 'aumento do número de administradores' hospitalares.

'Pergunte aos médicos e enfermeiros e aos profissionais que trabalham nos hospitais o que aconteceu nos últimos anos. Todos dirão que a diferença é que cada vez mais há mais papéis para preencher e mais administradores a quem responder, e mais complexidade no trabalho', afirma o representante dos médicos.

'Não podemos perder de vista que a função do hospital é tratar doentes. Não ponho em causa a importância de uma boa administração e da reflexão, mas isso só é importante quando [os hospitais] tiverem dinheiro para medicamentos e para os profissionais que tratam os doentes', concluiu Pedro Nunes.

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