Consumo aumenta nas fontes de água públicas

A procura de água em fontes públicas adstritas às unidades de engarrafamento do Luso e de Penacova, arredores de Coimbra, tem aumentado nos últimos anos, podendo a crise económica ser uma das causas.

Na zona do complexo termal do Luso, concelho da Mealhada, dezenas de pessoas enxaguam e enchem vasilhas na histórica fonte de São João.

A busca da água pura que brota das entranhas da serra do Buçaco, ao "preço da chuva", motiva consumidores de todo o país, mas também curiosos e turistas estrangeiros.

Quando que vai ao médico a Coimbra, António Pais, residente em Nelas, passa pelo Luso e abastece-se para dois meses.

Carrega entre 100 a 120 litros de água, que transporta para a viatura num carrinho. A mulher vai enchendo as vasilhas. "Esta água não é comparável a muitas outras", afirma António Pais à Agência Lusa, frisando que leva água para casa apenas para o seu consumo.

Ao contrário de Branca Antunes e Bernardo Antunes, aquele reformado, de 70 anos, defende que as atuais dificuldades económicas da população não têm levado à fonte do Luso mais consumidores por, supostamente, terem deixado de comprar água engarrafada.

"Tenho a impressão que não", sublinhou, indicando que ele próprio já se abastece há vários anos na fonte de São João, cuja água prefere em quaisquer circunstâncias. "Não é por questões económicas", enfatiza.

Oriundo de Tondela, o casal Antunes também não reforçou as idas ao Luso devido à crise.

No entanto, Branca e Bernardo admitem que o consumo desta água gratuita tem vindo a aumentar, em detrimento da compra nos supermercados.

"Nos últimos dois anos, acho que tem havido mais afluência. Antigamente, enchíamos aqui os garrafões mais depressa", salienta Bernardo Antunes.

A Sociedade da Água de Luso (SAL) detém o alvará de exploração das reservas subterrâneas deste bem natural, que comercializa desde o século XIX.

Fazendo jus ao ditado popular segundo o qual "a água não se nega a ninguém", qualquer pessoa pode encher garrafas e garrafões. As normas de acesso à fonte afixadas em vários locais.

Existem alguns limites, designadamente em termos de quantidade de vasilhas, sendo proibido o uso de meios auxiliares no seu transporte.

"Por vezes, há conflitos, não há ninguém que cumpra aquilo", refere António Ferreira, de 62 anos.

Também este taxista do Luso não nota diferença na procura da água que jorra gratuitamente das bicas.

"É uma água muito procurada, principalmente ao fim de semana", adianta.

Um antigo trabalhador da SAL, Ernesto Gomes, nunca perdeu o hábito de ir à fonte que ele próprio chegou a limpar quando laborava nas termas.

"Venha cá no domingo, por essas quatro horas... isto está tudo cheiinho de pessoas e um 'gajo' nem pode beber água", recomenda o reformado, de 80 anos.

Nas Caldas, a poucos quilómetros do Luso, um jovem desempregado carrega garrafões de água para a viatura.

Sérgio Ferreira mora em Condeixa-a-Nova, mas costuma ir buscar água à nascente próxima da empresa Caldas de Penacova. "Venho de 15 em 15 dias", conta à Lusa.

"Em minha casa, a água que se bebe é esta", declara o sogro, Alípio Borges, natural de Penacova.

Na infância, Alípio Borges acompanhava a mãe quando esta ia lavar roupa na antiga fonte das Caldas, cuja água era mais quente no inverno.

Aos 51 anos, este motorista viaja por toda a Europa. No camião, leva água da terra natal. Mata a sede e as saudades.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG