Combater a pobreza é "um bom negócio"

A Fundação Lusitânia está a apostar nas Zonas Especiais de Economia Social de Mercado (ZEESM) porque acredita que "é bom negócio combater a pobreza" e que "criar riqueza" é mais importante do que "fazer dinheiro".

Em entrevista à Lusa, Rogério Matos e Guimarães, presidente da fundação sem fins lucrativos que vai criar, em 2014, duas ZEESM, uma em Cabo Verde (Tarrafal) e outra em Timor-Leste (Oecussi), sublinha que um "global e sustentado combate à pobreza" não é contraditório com modelos económicos competitivos e concorrenciais.

"A economia é uma ciência social, as pessoas esquecem-se disso", observa, recordando que, nos últimos anos, se evoluiu "anormalmente" do ponto de vista técnico e científico, mas com "sérios retrocessos" sociais e humanos.

Considerando que é "extremamente redutor" ver as pessoas "como números", com "uma hora para entrar e uma hora para sair", num "processo repetitivo e não criativo", Rogério Guimarães contrapõe que as pessoas são "parte da solução" e devem ter "as ferramentas para serem autossuficientes".

É isso que a Fundação Lusitânia propõe com as ZEESM, áreas com autonomia fiscal, administrativa e jurídica, que garantem "um ambiente seguro para o início de um processo produtivo sustentado, em que o ser humano é o centro", explica.

A inovação está no "modelo de gestão dos ativos existentes". As ZEESM não são só "centros de negócios", querem ser competitivas, mas também inclusivas, distingue.

No fundo, são "zonas protegidas", com "uma cultura própria", onde as infraestruturas já existentes serão aproveitadas, mas "partindo de uma folha em branco", de forma a tornar os locais intervencionados "autossuficientes" e até "exportadores de recursos", acabando com a "subsidiodependência", diz.

Acreditando que "sem crescimento económico não há progresso" e que uma ZEESM "só é autossustentável se for rentável", Rogério Guimarães defende que "criar riqueza" é mais importante do que "fazer dinheiro". A "ideia de que os ricos são os responsáveis pela pobreza" e que "para combater a pobreza é preciso combater a riqueza" é algo "profundamente errado", defende.

O que as ZEESM propõem são "formas muito mais eficazes e muito mais rentáveis de continuar a criar riqueza, abrindo novos mercados". Em linguagem de negócios para quem não tem "muita sensibilidade" para o fator social: "Se combatermos a pobreza de forma adequada, vai-se criar mais riqueza". Resumindo, "é um bom negócio", considera Rogério Guimarães.

Os modelos económicos existentes "faliram", o que não quer dizer que não tenham "coisas muitíssimo boas", realça. "Não podemos mandar [fora] o bebé com a água do banho, o que precisamos é de um modelo-síntese, que traga o melhor da economia de mercado e o melhor da economia central", explica.

Afirmando que o projeto "nasceu em Portugal por acaso", Rogério Guimarães sublinha que as ZEESM pretendem ser "um projeto da lusofonia para o mundo", aproveitando o seu "potencial", mas tendo consciência da sua "capacidade real".

A lusofonia é "um gigante adormecido, com um coração muto específico", diz, defendendo que Portugal tem de assumir esse "sentido lusófono", para "crescer com os países irmãos", pondo de lado "traumas e superioridades falsas".

As ZEESM serão financiadas através de quatro fundos de investimento: construção da própria zona especial; desenvolvimento cultural e desportivo; combate global à pobreza e internacionalização. O Montepio funcionará como "banco operacional para emissão e gestão de fundos e distribuição de títulos", mas o projeto será alargado a "muito mais bancos", refere o presidente da fundação.

Depois de ser "estranhado", o programa parece estar a "entranhar-se", diz. A Fundação Lusitânia recebeu pedidos de duas dezenas de outros países e já concluiu o orçamento de uma ZEESM para um deles, adiantou Rogério Guimarães.

O programa, que já recebeu "duas propostas de compra", recusadas, também teve a "validação do mercado", ao superar o orçamento inicial previsto para uma das ZEESM que avançará em 2014, referiu, sem especificar qual delas.

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