Clínicos contra avaliação realizada pelos doentes

Profissionais dizem que utentes não têm competência para os avaliar, mas defendem a sua presença nas administrações

Nem os médicos nem os enfermeiros consideram que os cidadãos têm competência para participar na sua avaliação, mesmo que parcialmente. A proposta, ontem revelada pelo DN, integra o relatório do Grupo Técnico para a Reforma da Organização Interna dos Hospitais. Pelo contrário, as duas classes profissionais concordam que o cidadão esteja presente nas reuniões dos conselhos de administração dos hospitais, aliás uma fórmula que já existiu e que foi sendo eliminada.

No dia em que o documento entrou em discussão pública, Sérgio Esperança, dirigente da Federação Nacional dos Médicos, disse ao DN que "na apreciação dos profissionais de saúde, sobretudo em termos de aspectos técnicos e científicos, o doente não tem conhecimentos para o fazer". No entanto, "há necessidade de fazer valer a sua opinião sobretudo em relação ao funcionamento da instituição, às suas estruturas, aos espaços que são criados e aos tempos de resposta", exemplifica.

Relembra, porém, que estes são aspectos que "podem ser avaliados, mas não faz sentido que se reflictam na avaliação individual dos profissionais, quanto muito da administração da unidade", frisa.

José Carlos Martins, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), concorda com estas posições: "O doente não tem competências para avaliar os profissionais. As pessoas podem ter percepção sobre os atendimentos, a forma como são tratadas, mas mesmo em relação aos tempos de espera não devem poder avaliar os profissionais. Isto porque há questões que dependem dos recursos que existem no hospital. Há questões que não dependem dos profissionais", sublinha.

Em relação às especificidades da enfermagem, recorda o papel que os profissionais têm junto dos familiares. "Com a quantidade de funções que temos, é impossível darmos tanta atenção às pessoas, por isso não devemos ser avaliados por algo que não é nossa responsabilidade".

Já em relação à presença na administração, afirma que "é importante para que haja controlo social e se participe nas decisões". Sérgio Esperança recorda, porém, que "é importante que se escolham pessoas com credibilidade".

Há hospitais com equipamentos que fazem mais falta em unidades de outras regiões, onde o volume de casos de determinadas doenças é mais elevado. Um problema que é urgente resolver, bem como a reorganização da rede hospitalar em função da evolução da população e das suas especificidades.

Alcindo Maciel Barbosa, que liderou o grupo técnico que assinou o relatório, disse ao DN que "os equipamentos devem existir onde são necessários, o que nem sempre acontece. Devem ajustar-se à demografia e não existir onde não há procura ou recursos humanos para os utilizar", refere.

Ao mesmo tempo, está "contra as rivalidades entre regiões por determinadas valências". Os hospitais têm de se aproximar e contratualizar actividade sempre que necessário, diz o relatório, porque se evita que o doente salte de serviço em serviço e haja desperdícios. Também o número e localização dos hospitais deve ir ao encontro das alterações demográficas.

? Equipas Devem ser criadas unidades com autonomia financeira, de gestão e de funções, mediante contratos-programa com a administração. As equipas devem ser multidiciplinares e englobar várias especialidades

? Individuais e globais Os hospitais devem avaliar o desempenho da equipa e, até, individual, valorizando o bom desempenho

? Gestão Devem desenvolver-se estratégias para minimizar os riscos para o utente e para os profissionais. Os erros devem ser relatados e registados, embora de forma anónima e sem punição dos profissionais

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