China rejeita critérios de género e origem para novo líder da ONU

Pequim apoia o "mais capaz" dos candidatos a secretário-geral das Nações Unidas, qualidade que tem sido atribuída a António Guterres

O foco das atenções para a escolha do novo secretário-geral da ONU tem incidido nos últimos dias sobre a Rússia mas, ontem, a China tomou posição pública sobre essa eleição: quer o "mais capaz" dos candidatos no cargo.

Esta declaração aparenta encaixar no perfil do português António Guterres, que venceu as quatro votações já realizadas no Conselho de Segurança - a primeira das quais sem qualquer voto contra - e foi apontado como o melhor dos 12 candidatos que participaram nas audições e debates públicos nas Nações Unidas.

"Embora [os chineses] não se comprometam com nomes, é inevitável que estas declarações nos convoquem a imagem de António Guterres, porque é apontado como o mais qualificado e o mais capaz... é assim que a imprensa internacional tem feito os títulos todos", afirma ao DN Mónica Ferro, professora universitária e especialista em Nações Unidas .

Isso mesmo foi recordado esta semana pelo académico Richard Gowan, do Conselho Europeu de Relações Externas (grupo de reflexão sedeado em Londres): "António Guterres parecia um candidato periférico quando entrou na corrida [...]. A sua sorte mudou dramaticamente em abril, quando a Assembleia geral da ONU realizou uma ronda de audições com os candidatos. Guterres, espirituoso e obviamente conhecedor dos problemas das Nações Unidas, foi genericamente declarado o vencedor destes encontros públicos."

Mónica Ferro - que não fez parte da equipa que preparou a candidatura do ex-primeiro-ministro - adianta que "não houve da parte do governo chinês um endosso específico" a qualquer dos nove nomes ainda na corrida para secretário-geral da ONU. Contudo, a declaração feita ontem por um porta-voz oficial da diplomacia de Pequim "desvaloriza um pouco a notícia" de maio sobre a ida de Guterres à China.

António Guterres, recorda Mónica Ferro, "foi recebido pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros [Li Baodong] e isso foi usado como uma tentativa de secundarizar a candidatura" de Guterres, quando "afinal a China não tem um candidato que patrocine diretamente".

A reação oficial da China surgiu pouco depois de o jornal South China Morning Post (de Hong Kong) - citando "analistas chineses" - escrever ontem que a búlgara Irina Bukova era "a favorita de Pequim para liderar as Nações Unidas" a partir de janeiro de 2017.

A diretora-geral da UNESCO é a única dos nove candidatos que preenche os dois critérios informais inicialmente apontados como decisivos - mais do que o do mérito, assinalado pela diplomacia portuguesa - na escolha do sucessor do sul-coreano Ban Ki-moon: ser mulher e do Leste europeu.

O facto de Bukova continuar longe dos primeiros lugares nas votações informais já realizadas pelo Conselho de Segurança, recebendo cinco votos de "desencorajamento" nas duas últimas, reforçou a especulação em torno do lançamento da candidatura de outra búlgara, Kristalina Giorgieva.

Encontros de Santos Silva

Lu Kang, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, frisou ontem em conferência de imprensa que "a ONU está a analisar as candidaturas e a China vai trabalhar com os outros países para assegurar que é o [candidato] mais capaz a assumir o cargo".

Recorde-se que o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, encontrou-se em julho passado com o seu homólogo chinês, à margem da Cimeira Ásia-Europa que se realizou na capital da Mongólia, Ulan Bator.

Santos Silva, que deve reunir-se hoje à margem da Assembleia Geral da ONU com o homólogo russo, Sergey Lavrov, para analisar o apoio de Moscovo à candidatura de Guterres, manteve contactos com os ministros europeus no âmbito das reuniões da UE. Com o chefe da diplomacia norte-americana, John Kerry, falou no jantar transatlântico oferecido pelos EUA aos altos presentes esta semana em Nova Iorque, disse fonte oficial ao DN.

Portugal, que nos últimos meses reforçou a sua representação diplomática junto da ONU por causa da candidatura de Guterres, dirigiu esta semana os seus esforços diplomáticos para Moscovo - a começar com a entrevista do ex-primeiro-ministro à agência russa Sputnik.

"António Guterres tenta demonstrar que tem perfil para o cargo - a independência, a imparcialidade, o agir de acordo com carta da ONU - porque essa é uma mensagem importante para aquela zona do mundo", diz Mónica Ferro, que rejeita a ideia de Moscovo opôr-se ao português por ser ex-chefe de governo de um país da NATO.

"O que poderá ser um óbice é a Rússia decidir que é extremamente importante o candidato ser da Europa de Leste... a questão não é Guterres e o percurso dele, pois isso funciona tudo a favor dele", argumenta a professora universitária, lembrando o empenho de Guterres "a favor dos Direitos Humanos e da paz" e o "não congregar uma ideia militarista ou política que favoreça uma solução securitária" para problemas como o dos refugiados.

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