"Certeza que o jornal será emoldurado lá em casa"

A procura da publicação satírica francesa hoje em Lisboa superou em muito o número de exemplares chegados. Na próxima semana, haverá nova remessa.

"Foi toda uma série de nomes que acompanhou a minha geração", diz Olivier ao DN à saída de uma loja de revistas na Baixa lisboeta, para explicar porque procurava o mais recente número da Charlie Hebdo, que só sexta-feira foi distribuído em Portugal. "Cresci com os seus desenhos. Lembro-me de Wolinski, de Charb, dos outros. Alguns chegaram a ter programas na televisão a explicar às crianças como se desenhava", recorda este francês a residir em Portugal há seis anos, funcionário num hotel de Lisboa. Ficou algo desapontado ao saber que os cerca de 20 exemplares chegados ao International Press Center (IPC), nos Restauradores, estavam todos reservados, alguns "logo no dia 7", sublinha o gerente e proprietário da loja, Vítor Túlio. Sabendo que mais exemplares são esperados no início da próxima semana, Olivier aceitou fazer uma reserva, apesar de saber que o seu nome ficou na 189.ª posição na lista de pedidos.

Ainda que "não estando necessariamente de acordo com a linha editorial" da revista, aquilo que se passou em Paris "foi terrível", algo "que não devia suceder" e que Olivier tenta agora explicar às suas filhas. "É algo que não pode voltar a suceder", diz à despedida, após agradecer poder expressar-se em francês, porque o seu português "não é ainda muito bom".

Como Olivier, outras pessoas - todas elas portuguesas, além de dois holandeses - passaram sexta-feira pela pequena livraria dos Restauradores à procura do Charlie n.º 1178, com a data de 14 de janeiro. A maioria perguntava pela revista, ouvia o inevitável "esgotada" e aceitava a inscrição na lista de reservas. "Uma verdadeira loucura" a dimensão da procura, refere Vítor Túlio. Que começou "logo no dia 7", com alguns telefonemas e passagens pela loja. O absoluto contrário do que sucedia até agora. "Não tinha qualquer reserva. Vinham dois exemplares e, às vezes, vendia um", refere o proprietário do IPC. Mas, ontem, "logo às 8.00 da manhã já havia pessoas à porta" a tentar comprar a revista. Quanto aos que reservaram, esses deveriam aparecer pela "hora de almoço ou ao final da tarde", pensava Vítor Túlio, que falou durante a manhã ao DN.

Dos que fizeram a reserva, alguns apareceram bem cedo, logo a seguir à abertura de portas, pouco antes das 9.00. Uns, reservados, não quiseram prestar declarações nem aceitaram ser fotografados. Outros, deixaram-se fotografar com a revista, desde que não fosse visível o rosto. Uns terceiros, concordaram falar ao DN sob anonimato, e tornando bem claro que não queriam ver publicada a sua imagem. Caso de um economista de "61 anos", que viveu em França "nos anos 70". Parte do grupo dos 20 primeiros, adquiriu um exemplar "pura e simplesmente" porque acha que "tem algum valor. É resultado do que aconteceu em Paris", e permite-lhe retomar o contacto com a publicação que lia em França. Hábito perdido ao regressar a Portugal: "Fui vendo a revista, mas não era uma coisa regular". Agora não afasta a hipótese de voltar a comprar a Charlie, porque compra jornais "de acordo com os acontecimentos".

Definindo-se como "leitor habitual do Charlie Hebdo, do Canard Enchainé e da anterior", a Hara Kiri, fundada nos anos 60, Francisco Barbosa, antigo jornalista, quis comprar este número da revista como gesto "pela liberdade de expressão". Achou que era o "momento... e também uma forma de daqui a 20 anos todos nos lembrarmos" do que sucedeu em Paris. O que mais lhe agrada é o "aquele humor francês, corrosivo, que faz falta" e, a haver "excessos na liberdade de expressão, que sejam ultrapassados nos tribunais. Num Estado de Direito, essas coisas não se resolvem com um crime". E numa declaração de intenções inequívoca, garante que subscreve por completo "a frase 'Sou Charlie' e com certeza que o jornal será emoldurado lá em casa".

Leitor pela "primeira vez", mas "conhecedor de há muitos anos da revista, que costumava folhear", António, designer gráfico, quis adquirir o n.º 1178 pelos ataques de Paris, "mas não só". É admirador e "acompanhava o trabalho de muitas pessoas ligadas à revista". A aquisição deste número vê-a "mais como uma homenagem" às "pessoas que fazem jornalismo através do desenho".

Para já, sem um exemplar nas mãos, que outros levavam consigo de forma discreta ou, mais raramente, ostensiva, Josefa teve de se ficar por ver o seu nome acrescentado à lista de reserva que continua a aumentar ao longo da manhã. "Não, não sou uma leitora habitual", admite naturalmente esta funcionária pública. Conhece o título "por um familiar a viver em França", mas "nunca tinha outras edições" com detalhe. Ontem, fez a reserva porque se considera pessoa "atenta aos acontecimentos" e quer perceber melhor a revista. Mesmo que não consiga um exemplar da remessa que chega na próxima semana, tenciona insistir na "reserva". Pelo modo, como decorre a procura em Portugal, acredita que continuarão a chegar revistas de novas e sucessivas tiragens. Com números e numa dimensão que está para além dos valores habituais de outras edições. Como a anterior, a n.º 1177. Numa outra prateleira, perto daquela onde estão os exemplares do n.º 1178, está dobrado um único exemplar com a data de saída do dia do atentado. "Um cliente telefonou-me logo nesse dia a perguntar se tinha ainda algum [Charlie Hebdo] e dois que costumam vir, tinha sobrado aquele".

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