Queixas contra médicos que adormeceram nas consultas

Clínicos contratados à hora chegam exaustos ao SAP. Responsável preocupada

Com toda a família constipada, Eleni da Fonseca foi a uma consulta de urgência com o marido e o filho de dois anos. "O médico foi muito simpático, ouviu as nossas queixas, com toda a calma, mas a meio da consulta ele baixou a cabeça, fechou os olhos e ficou ali a dormir à nossa frente", contou ao DN a moradora em Foros do Almada, no concelho de Benavente.

Este não é o primeiro nem é o último caso de um médico que adormece a meio da consulta no Serviço de Atendimento Permanente ( SAP) de Benavente, como explicou ao DN o coordenador da Comissão de Utentes do Concelho de Benavente, Domingos David.

Tudo por causa da falta de clínicos que obriga o serviço a contratar médicos que trabalham em vários locais ao mesmo tempo e que chegam exaustos às consultas. E se não adormecem mais vezes é porque dormem nos intervalos. "Funcionários e enfermeiros afirmam ser frequente terem de ir acordar os médicos que adormecem nos gabinetes provocando atrasos entre consultas", diz Domingos David.

No ACES - Agrupamento de Centros de Saúde da Lezíria, ao qual Benavente pertence, apenas existe uma reclamação por escrito no livro amarelo contra um médico que adormeceu durante a consulta, conforme confirmou ao DN a directora executiva do ACES Lezíria, Luísa Portugal. Mas as queixas conhecidas são muitas.

"Estou atenta e a tentar resolver este e outros problemas com a empresa de prestação de serviços", declarou ao DN Luísa Portugal. "Rescindir o contrato com a empresa não resolve o problema, porque os médicos são os mesmos nas várias empresas de prestação de serviços porque, devido à falta de clínicos, esta solução é a única que temos para garantir a prestação de cuidados de saúde aos utentes de Benavente", afirma.

A directora considera que "a situação é preocupante, embora seja pontual e não ponha em causa a qualidade técnica do atendimento dos doentes". A responsável diz que "as queixas mais frequentes são motivadas pelos atrasos e tempos de espera demasiado longos, não existindo reclamações por negligência ou má qualidade dos actos médicos".

Os dois médicos que asseguram o funcionamento diurno do SAP chegam a Benavente para trabalhar, sem descansar, depois de cumprirem turnos noutros hospitais. "É impossível um médico sair às 8 horas da manhã do Barreiro ou de Évora e entrar em Benavente às 8 horas", afirma Domingos David. Pior ainda do que os atrasos, já houve dias em que nenhum profissional apareceu para assegurar o funcionamento do SAP.

"Estas empresas de trabalho temporário têm que ser fiscalizadas, no que se refere à qualidade do serviço que prestam às populações, porque uma coisa é contratar um pedreiro que se fizer um mau serviço apenas estraga uns baldes de massa, outra é um médico fazer um mau diagnóstico que ponha em causa uma vida", defende Domingos David.

O concelho de Benavente, com uma população que ronda os 30 mil habitantes, tem neste momento cerca de 9 mil pessoas sem médico de família, cuja única alternativa é recorrer ao SAP. "Faltam 18 a 20 médicos para garantir um atendimento regular no ACES Lezíria, onde existem cerca de 30 mil utentes sem médico de família", diz Luísa Portugal, dando conta que há problemas de assistência em todos os concelhos, à excepção de Alpiarça, onde foram contratados dois clínicos cubanos. "E no próximo ano, a tendência é para piorar", prevê, apontando o caso de Salvaterra de Magos, onde 7 mil utentes estão sem médico de família e mais dois clínicos se vão reformar.

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