"O David é um psicopata. É duro mas é verdade"

Advogado de estudante que matou namorada à marretada defendeu inimputabilidade. Juiz teve de expulsar mãe da vítima

Chegou ao fim o julgamento de David Saldanha que em Novembro do ano passado matou a namorada à marretada e depois atirou o corpo de Joana Fulgêncio para a barragem de Fagilde, em Viseu. Com o tribunal lotado e perante a reacção acalorada do público, a defesa atribuiu o crime à "doença psicopata" do arguido enquanto o Ministério Público (MP), que censurou duramente o comportamento da mãe de Joana durante o julgamento, afastou a premeditação e pediu 17 anos de pena de prisão.

A mãe, que se constituiu assistente no processo, foi novamente expulsa da sala de audiência depois de reagir às palavras do procurador. Mas não foi caso único.

A última sessão do caso foi novamente marcada por forte agitação que obrigou a juíza presidente do colectivo a ordenar o reforço policial e a colocar "fora do tribunal" a mãe da vítima e vários assistentes. Quando o arguido entrou na sala voltaram-se a ouvir impropérios e insultos, mas só quando o delegado do MP aproveitou as alegações finais e censurou "o triste espectáculo dado pela mãe da vítima e seus acólitos" é que os ânimos azedaram.

Paula Fulgêncio ainda tentou pedir a palavra, mas já a juíza determinava a sua expulsão. Enquanto era arrastada para fora da sala gritou "não é a vossa filha que foi assassinada. Foi a minha!". Depois da expulsão, o MP retomou a palavra e lembrou que "não é com pontapés no carro celular, T-shirts e insultos ao arguido que se influencia a decisão do tribunal" e foi novamente interrompido pelo público que gritou "não é um espectáculo, é um sofrimento".

Seguiram-se novas expulsões da sala. O delegado alegou que o crime foi "um homicídio como há muito não se via nos tribunais" (ver caixa), cometido "de forma torpe. Repugnante aos olhos da comunidade, cometido só porque o arguido foi contrariado pela vítima". O procurador lembrou que Joana "foi morta à falsa fé, por um indivíduo que ferve em pouca água, de forma insidiosa" mas afastou a premeditação ao considerar que "não houve nexo entre a compra da marreta e a intenção de matar". Pediu 17 anos de pena.

De seguida, o advogado da mãe da vítima censurou as palavras do procurador. "Avisei que isto ia dar barulho. O MP não pode provocar as pessoas sem ter reacção", disse Carlos Valverde que, apesar disso, apresentou desculpas pelo comportamento de Paula Fulgêncio. Mas, lembrou, "o povo tem sempre razão" e considerou a reacção "desnecessária mas compreensível porque é mãe e ainda não interiorizou a morte da filha. Está à espera da sentença como quem está no deserto sequioso de água".

O advogado passou então ao ataque e lembrou que "a compra da marreta tinha um fim, atingido dez dias mais tarde, por quem teve premeditação para matar e matou de forma desapiedada e desumana". Acabou a pedir uma pena de prisão de 22 anos.

Já o advogado de defesa afirmou que "o David é um psicopata. É duro dizer isto, mas é verdade, como o comprovam os relatórios médicos", mas recordou que "numa democracia não é o povo quem faz justiça". Joaquim Ribeiro salientou que o arguido "padece de uma doença e tem imputabilidade reduzida". De entre a audiência, uma mulher gritou: "se ele é um santo metam-no no altar", e nova expulsão da sala. Depois da intervenção da juíza, o advogado concluiu salientando que a justiça "deve dar um exemplo aos cidadãos, mas também deve reintegrar".

A sentença está marcada para o próximo dia 23.

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