"Primeiro as minas, depois a emigração e agora a escola"

Em Queiriga, Vila Nova de Paiva, os habitantes temem ficar abandonados

A notícia do encerramento da Escola Básica da Queiriga, no concelho de Vila Nova de Paiva, ainda está a ser "digerida" pela população. Com o encerramento da escola fecha também o ATL da associação. O presidente da câmara promete dar luta mas o povo já se convenceu: "Primeiro as minas, depois a emigração e agora a escola. Fecham tudo."

A escola, do plano do centenário, dispõe de quatro salas, mas duas há muito que deixaram de ter utilidade. Enquanto as ervas daninhas comem o terreiro, sobram apenas duas salas e 23 alunos, 15 no básico e oito no pré-escolar. Na aldeia, os habitantes não chegam a 180 e é preciso penar muito para encontrar alguém que tenha filhos na escola.

"Aqui tenho o meu filho debaixo de olho e estou sempre presente. Em Vila Nova não sei como será...", desabafa Patrocínia Figueiredo, mãe de uma aluna da 3.ª classe. Também Rosa Capela, avó de duas meninas de 8 e 6 anos, está "indignada. Fecham tudo e nem nos perguntam a nossa opinião", dispara.

Mas quase que podiam perguntar, tão poucos habitantes há em Queiriga. Na aldeia, que já foi couto mineiro e que a emigração classificou como a aldeia mais francesa de Portugal, o desagrado é grande. "Fecha a escola e encerra o ATL", assegura o presidente da junta. Augusto Moreira lamenta "a morte lenta de Queiriga, o investimento feito no ATL e os postos de trabalho - dois - que se perdem".

Por aqui, dois postos de trabalho equivalem a 1,5% de toda a população da freguesia. Na sede do concelho, o autarca já faz contas "ao aumento dos custos com os transportes, que já atingem os 1200 euros por cada dia de aulas". José Morgado confirma a intenção de encerrar e lamenta a "crise" que vai "adiar a construção do centro escolar devido a esta nova indefinição". Também não precisa. A secundária e a básica "têm muito espaço livre", afiança o povo. Apesar disso promete "fazer obras nas escolas da vila". Adianta que ouviu a Direcção Regional de Educação, mas garante que "a escola só fecha quando tudo estiver esclarecido e forem assumidas as transferências para os gastos que vamos ter de suportar". Até lá "a escola não encerra", assegura.

A vontade do autarca esbarra na pressa do Ministério da Educação. Na quarta-feira as duas professoras da escola reuniram-se na sede do agrupamento e foram informadas de que "os três primeiros anos vão para a Escola Básica enquanto do 4.º ano em diante ficarão na sede do agrupamento", todas na vila, 10 quilómetros mais à frente. "Provavelmente no próximo ano lectivo ainda haverá pré-escolar, mas em 2011 a escola fica devoluta", conta fonte do agrupamento.

Vila Nova de Paiva é o paradigma do encerramento de escolas no interior do País. Em sete freguesias, duas já não dispõem de qualquer estabelecimento de ensino e a terceira está em vias. Exceptuando a sede do concelho, com 69 alunos no pré-escolar e 102 no básico, as aldeias estão condenadas. Em Vila Cova à Coelheira há 15 alunos no pré e 33 no básico. No Touro são 26 no pré e 49 nos outros ciclos. Em Pendilhe, onde os rumores de encerramento também já chegaram, são 11 alunos no pré e 23 no básico. Como em todo o interior, o maior número de alunos está já nos últimos anos. Daí que o autarca considere que o encerramento de uma escola "é a morte do pouco que resta do concelho!"

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