Portugal é um refúgio para as mafias sicilianas

Isolados ou coligados com outras organizações criminosas, os mafiosos italianos encontraram em Portugal um paraíso para traficar droga ou lavar dinheiro. Espanha é base principal

A Mafia siciliana tem vindo a estender os seus tentáculos em território português, de uma forma discreta, com vários elementos a procurarem guarida em solo luso, alguns "coligados com outras estruturas como a Mafia brasileira", refere ao DN José Manuel Anes, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT).

"As várias organizações mafiosas sicilianas (Camorra, 'Ndran-gheta e Cosa Nostra) recrutam elementos locais, portugueses, e coligam-se com outras mafias, como a brasileira, também presente no nosso país."

Segundo o último relatório da agência policial europeia Europol, de 2009, Portugal tem um "papel significativo" no tráfico de droga desenvolvido pela 'Ndrangheta, o principal grupo italiano envolvido nas redes de cocaína.

A acção da Mafia italiana em Portugal é também confirmada num livro de Francesco Forgione, o antigo presidente da Comissão Anti-Mafia do Parlamento italiano. No seu livro Mafia Export, Forgione indica mesmo Faro e Setúbal - cidades portuárias e com zonas costeiras apropriadas para desembarques - como bases da Mafia calabresa 'Ndrangheta.

Os crimes de tráfico de droga e branqueamento de capitais são os mais praticados pelos mafiosos que se instalam na Península Ibérica, como foi, alegadamente, o caso de Giovanni Lore, que veio de Vigo, na Galiza, para o Bombarral, em Leiria. E os mafiosos italianos detidos em Portugal nas últimas duas décadas (ver infografia) estavam precisamente associados a essa criminalidade, com excepção a Mario Iovine, que foi morto por retaliação. "Há um conjunto de mafias que se instalaram em Espanha e que transitam facilmente para Portugal", adianta José Manuel Anes.

No país vizinho "existem pelo menos 50 grupos de crime organizado de várias nacionalidades, italianos, magrebinos, russos e romenos". A facilidade desses grupos em se deslocarem a Portugal é óbvia. "Por exemplo, a Mafia romena, dos assaltos às moradias, está sediada em Espanha. O ouro que roubam segue depois por autocarros Expresso", refere o presidente do OSCOT.

A "lavagem de dinheiro" é uma das preocupações dos mafiosos instalados. " No Sul de Espanha a Mafia russa está farta de comprar moradias de luxo, precisamente para lavar dinheiro. E estão já a fazer o mesmo no Algarve", sublinha.

O jornalista e escritor Roberto Saviano, 30 anos, autor do best- -seller Gomorra (sobre a Camorra napolitana), também entende que Portugal deve preocupar-se com a presença da Mafia italiana. "É preciso ter cuidado porque o problema está a tornar-se grave. Hoje, o perigo está no facto de as costas espanholas andarem mais vigiadas, o que leva os traficantes a entrar por Portugal", disse Roberto Saviano ao Público a 20 de Setembro de 2009.

A "discrição" da mafia no nosso país é apontada pela Europol como método característico, com o intuito de "iludir a atenção das autoridades" com crimes menos graves. José Manuel Anes entende que "as nossas polícias ainda não têm um trabalho sistemático sobre as mafias". Mas "colaboram muito com as autoridades espanholas", o que "é útil". O presidente do OSCOT considera que o SIS (Serviço de Informações de Segurança) "devia ocupar-se também do crime organizado". Não é tese consensual.

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Adriano Moreira

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