Cidadãos querem museu da resistência na ex-sede da PIDE

Várias figuras públicas de Coimbra defendem que a antiga sede local da PIDE, à venda por quase dois milhões de euros, deve ser comprada pelo Estado para perpetuar a memória da resistência ao fascismo.

O palacete que albergou a polícia política, na rua Antero de Quental, deverá ser adquirido e transformado "num museu da resistência estudantil à ditadura", disse à agência Lusa o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto.

"Se eu tivesse dinheiro, comprava o edifício e fazia ali um museu", acrescentou.

Em 1971, então aluno da Universidade de Coimbra, Marinho Pinto foi preso pela PIDE por envolvimento na contestação estudantil ao regime.

Foi depois levado para a sede nacional daquela polícia, em Lisboa, e transferido para Caxias, onde esteve preso dois meses.

Cabe ao Estado comprar o imóvel de Coimbra, propriedade de um privado, e promover a sua adaptação a espaço museológico "para preservar a memória desses tempos terríveis", preconizou.

Também o professor universitário Rui Namorado, presidente da assembleia geral da associação Não Apaguem a Memória, preconiza o empenho dos poderes públicos na preservação da antiga sede da PIDE de Coimbra.

"Deveria ser tomado como exemplo o que está a acontecer com a cadeia do Aljube", disse, realçando que a Câmara de Lisboa vai transformar o imóvel "num espaço de memória" da resistência.

O projeto de musealização do Aljube foi apresentado no dia 24 de abril. O município lisboeta anunciou que o Museu do Aljube - Resistência e Liberdade abrirá no dia 25 de abril do próximo ano.

Rui Namorado, que em 1969 esteve envolvido na Crise Académica, enquanto membro da Comissão Pró-Eleições da Associação Académica de Coimbra (AAC), disse que a antiga sede local da PIDE, "por aquilo que as pessoas ali sofreram", poderia ser "uma réplica complementar" do projeto do Aljube, integrando uma rede museológica mais alargada.

O ex-deputado do PS recordou a manifestação realizada na rua Antero de Quental, em 1969, após o presidente da AAC, Alberto Martins, ter sido preso pela PIDE.

"Foi o único lugar, antes do 25 de Abril, onde se realizou uma manifestação pública à porta da PIDE", com centenas de pessoas exigindo a libertação de Alberto Martins, agora deputado do PS.

Falecido em 2007, Alberto Vilaça conheceu bem a sede da PIDE em Coimbra, onde esteve preso várias vezes.

Foi ele o autor da proposta que levou a Câmara Municipal a construir um monumento ao 25 de Abril, no largo defronte do palacete que albergou a PIDE.

A viúva do advogado comunista, Natércia Vilaça, defende a preservação do edifício pelo Estado, "para que as pessoas saibam" o papel da polícia da ditadura.

Embora "em ponto mais pequeno", entende que não devia acontecer em Coimbra "o que fizeram em Lisboa" com a sede da PIDE, alienada para um projeto imobiliário.

Opinião diferente tem o advogado e militar de Abril Manuel Matos, que integrou a Comissão de Extinção da PIDE-DGS, que funcionou na antiga sede local da PIDE.

"A casa, para mim, tem pouco significado", disse à Lusa. O monumento ao 25 de Abril, na sua opinião, é que deveria ter sido concebido "de forma a demonstrar o sofrimento" infligido pela PIDE aos opositores da ditadura.

A compra do imóvel pelo Estado "seria exigir demais ao povo português", na atual situação económica do país, disse Manuel Matos.

Posto à venda, através de uma imobiliária de Coimbra, pelo preço de 1.950.000 euros, o edifício já acolheu, também, serviços da Direção Regional de Educação e uma extensão de saúde.

No livro "A Estátua -- A Tortura Preferida pela PIDE", o antifascista José António Pinho narra 40 dias vividos por um preso "nas masmorras da polícia política", em Coimbra.

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