Artesãos unem-se pela tradição da cerâmica malandra

O rei D. Luís encomendou um 'objecto divertido'. Os falos cerâmicos resistem até hoje

A ideia de preservar a cerâmica vernácula é antiga, mas só agora ganhou forma. Vítor Lopes Henriques e Conceição Colaço foram os mentores da Tesouros Verdadeiros, uma "associação na hora", criada ao abrigo do programa Simplex e que conta com mais de uma dezena de associados. "Desde 2001 que investigo a cerâmica com motivos fálicos. Foi tema de um trabalho do mestrado que fiz em Estudos do Património e no qual entrevistei vários ceramistas", conta Conceição Colaço, 55 anos.

A museóloga responsável pelo serviço educativo do Museu José Malhoa não mais perdeu o contacto com os artesãos e, no início de 2009, não conseguiu recusar a proposta de Vítor Lopes Henriques, 63 anos. "Tinha muito material disperso e precisava de trabalhar", revela o ceramista que começou aos 14 anos "a fazer moldes para os artesãos, que agora estão a desaparecer". O presidente da recém-criada associação conta com a experiência enquanto formador, que o levou a estar na Expo'98, e com os mais de vinte anos na Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro. Empresa por onde também passaram mais dois dos quatro artesãos residentes da Tesouros Verdadeiros. Entre eles, José Pires que aos 54 anos soma 20 dedicados à cerâmica. Retratista, escultor e restaurador, José Pires será responsável pela pintura e vidrados. "São a minha família e é por isso que aqui estou."

"Toda a vida fui ceramista e é muito triste ver uma tradição não ter continuidade", confessa João Lúcio, 71 anos. O antigo operário da fábrica de Rafael Bordallo Pinheiro nem mesmo quando esteve no Canadá deixou de moldar novas peças, ainda que nos tempos livres. "Quando regressei trouxe um forno para abrir uma pequena fábrica, o que nunca chegou a acontecer", conclui.

O forno será agora utilizado no atelier, que terá Madaíl Mendes, 70 anos, como o quarto artesão residente. "É gratificante ver o interesse das pessoas em ver como funciona", comenta o ceramista que viveu mais de quatro décadas em Amesterdão, na Holanda, e que quer criar um dicionário de "utensílios antigos ricos em história" de uma arte em vias de extinção.

A sede da Tesouros Verdadeiros está ainda a ser construída na Expoeste, um espaço cedido pela Câmara Municipal das Caldas da Rainha. O início de actividade do atelier está previsto para o final deste mês. O espaço vai estar aberto ao público, de forma gratuita, que queira acompanhar ao vivo o trabalho destes quatro ceramistas, mas para quem quiser aprender.

A associação irá desenvolver diversas formações, onde os interessados poderão experimentar numa fase inicial as diversas técnicas a partir dos materiais dos artesãos. A ideia é não perder esta tradição ... malandra. Com o aumento do número de associados e com as receitas da venda das peças da marca Tesouros Verdadeiros (caixa em baixo), a associação pretende disponibilizar mais material aos alunos interessados. O objectivo, explica Conceição Colaço, é "a associação funcionar sempre de forma museológica, para que as tradições e o saber-fazer sejam transmitidos".

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