Cenário de mini-revolta não vai travar eleição na Assembleia Geral

No rescaldo da campanha para a escolha do novo secretário-geral da ONU, ONG definem a organização como um "clube de homens". Votação irá decorrer na próxima semana.

"Esperamos que, pelo menos, prossiga a agenda feminista, tendo, como prioridade das prioridades, a paridade do género no seu gabinete no Secretariado, e que dê destaque ao combate à violência e discriminação contra as mulheres", afirmava ontem uma das responsáveis da ONG Igualdade Agora (Equality Now), ao comentar a escolha do Conselho de Segurança das Nações Unidas de António Guterres para o cargo de secretário-geral da organização.

Em declarações ao The New York Times, Antonia Kirkland, classificou a decisão como um "desapontamento". Na mesma linha, mas com uma subtil diferença, pronunciou-se uma das seis candidatas originais ao cargo. A costa-riquense Christiana Figueres - secretária executiva da Convenção da ONU para as Alterações Climáticas - deixou ontem uma mensagem no Twitter, em que constava ser o resultado final "agridoce". Do lado "amargo: não é uma mulher. Doce: de longe, o melhor homem na corrida. Parabéns, António Guterres!". Uma outra mulher candidata, Susana Malcorra - MNE da Argentina - afirmou-se "mais do que convicta que [Guterres] será um excelente #NextSG".

Se a mensagem de Figueres e Malcorra refletem de forma equilibrada uma das grandes questões no centro do processo, diferentes ONG e media australianos e neozelandeses, país que avançou com uma candidata - Helen Clark, antiga chefe do governo e responsável do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - enveredaram por um registo demagógico. Para o ramo australiano da Agência Internacional para o Desenvolvimento Feminino (IWDA, na sigla em inglês), "é escandaloso que após 70 anos [da fundação da ONU], e depois de um expressivo trabalho de pressão das mulheres em todo o mundo, salientando que devia ser uma mulher a ocupar o cargo, a ONU venha dizer que não há uma mulher no planeta que esteja à altura", disse Jo Hayter, dirigente da IWDA, citada nos media australianos. Media, entre os quais o The New Daily, que lembravam ter a candidatura de António Guterres, definindo-o como "católico devoto (...) e opositor declarado do aborto e do casamento de pessoas do mesmo sexo", a oposição dos grupos "dos direitos gay". E escrevia ainda a mesma publicação que aqueles grupos tinham pedido ao presidente Barack Obama "para vetar" a escolha do Conselho de Segurança. Os EUA, em conjunto com a China, França, Reino Unido e Rússia, dispõem de direito de veto neste órgão da ONU. Mas, ao final do dia, também Helen Clark , manifestara satisfação pela vitória de Guterres. A própria candidata de undécima hora, Kristalina Georgieva, saudou a vitória do candidato português.

Para a responsável da Campanha para a Eleição de uma Mulher [para o cargo de secretário-geral da ONU], Jean Krasno, "com 14 homens no Conselho de Segurança e uma mulher, Samantha Power [dos EUA], não conseguiam conceber um homem no lugar do topo". Para Krasno, citada na edição online da Foreign Policy, "o velho clube fechado dos homens continua a fazer acordos escondidos"; por isso, "a reforma da ONU" e, nela, "a igualdade do género" continuam distantes.

O tom destas declarações deixa no ar a hipótese de uma mini-revolta na sessão da Assembleia Geral que, em momento a suceder na próxima semana, deve confirmar a escolha do novo secretário-geral da ONU. Que poderá servir para recordar a Guterres a importância dos desafios presentes no mandato que inicia a um de janeiro próximo. E que vão desde a questão da reforma do sistema da ONU, do próprio processo de escolha do secretário-geral ao funcionamento e composição do Conselho de Segurança, da composição dos quadros de organização, às questões do clima, da crise dos refugiados ao alcance das missões de paz da organização.

As declarações feitas por representantes dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança deixam, no entanto, claro que qualquer revolta não terá efeitos práticos, a não ser o de determinar se o novo secretário-geral tem, ou não, anticorpos relevantes no quadro da Assembleia Geral. Para o embaixador francês na ONU, François Delattre, Guterres é "o dirigente certo para unir" a comunidade internacional. O seu homólogo russo, Vitaly Churkin, salientou as "importantes credenciais" de Guterres enquanto Alto-Comissário para os Refugiados, classificando-o como um "político de alto nível e "uma grande escolha de todos nós".

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