Cavaco Silva acelera audições e chama todos os partidos

Presidente prepara-se para anunciar decisão em breve. Banqueiros dizem que país tem de respeitar compromissos

O Presidente da República não abre o jogo mas aumenta o ritmo. Com o país mergulhado num impasse político desde que o programa de governo PSD-CDS foi chumbado no Parlamento há nove dias, Aníbal Cavaco Silva prosseguiu ontem as audições - desta feita com os líderes dos maiores bancos nacionais - e convocou os partidos com assento parlamentar a irem amanhã ao Palácio de Belém.

O Chefe do Estado não adiantou, contudo, com que propósito fez a convocatória (que ontem à noite ainda não constava na página oficial da Presidência), isto é, se as audições a PSD, PS, BE, CDS, PCP, PEV e PAN serão feitas ao abrigo do artigo 187.º da Constituição, aquele que estipula que "o primeiro-ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República [AR] e tendo em conta os resultados eleitorais".

Dito de outra forma, não houve confirmação oficial de Belém de que Cavaco insira estas audiências no objetivo da formação de um novo governo, descartando a possibilidade de manter o atual em gestão corrente.

Ou até que não equacione uma outra via: a formação de um governo de iniciativa presidencial, hipótese que também seria rejeitada pela esquerda na AR. O próprio PS teme, aliás, que Cavaco esteja a ponderar indigitar alguma personalidade próxima da coligação para ficar a cozer até junho, altura em que constitucionalmente poderão ocorrer novas eleições.

E se o Presidente não excluiu, na visita à Madeira, a opção por um governo de gestão, é o cenário de um executivo de iniciativa presidencial aquele que estaria mais próximo das pretensões da direita. Até porque Passos já sinalizou que não quer ficar "a assar" ao dar a cara por um governo que na prática não governa.

Na ressaca do chumbo parlamentar, o primeiro-ministro foi a Belém na passada quinta-feira alertar o Presidente dos riscos que um governo de gestão comporta, frisando não ter condições para ficar à frente de um executivo com tais constrangimentos.

E na segunda-feira o porta-voz do PSD, Marco António Costa - recusando falar de um eventual governo de iniciativa presidencial -, notou que o partido rejeita um executivo chefiado por António Costa, reduzindo-o a "um golpe político contra os resultados eleitorais".

Traduzindo: parece que está a fazer caminho a hipótese de um governo de iniciativa presidencial, embora todos estejam cientes das dificuldades de encontrar alguma personalidade disposta a libertar Passos e Portas para o combate político até novas eleições.

Banqueiros e os compromissos

Ontem passaram por Belém os líderes dos maiores bancos nacionais. Sem reservas de maior quanto ao próximo governo mas com uma premissa clara: Portugal tem de cumprir os compromissos internacionais a que está vinculado.

Fernando Ulrich, presidente do BPI, foi perentório ao vincar que confia em Costa para "manter o país num caminho de rigor e de garantia de estabilidade no sistema financeiro". O presidente executivo do Millennium bcp, Nuno Amado, afirmou estar "bem confiante" de que "um futuro novo governo" irá dar atenção à necessidade de estabilidade para manter a confiança e o investimento.

Já o presidente do Novo Banco, Stock da Cunha, defendeu que o país deve manter a trajetória de "consolidação das finanças públicas" e de "melhoria da posição externa". Sobre prazos para a resolução deste impasse, uma certeza: "O Presidente da República sabe bem os prazos que tem." Para Vieira Monteiro, CEO do Santander Totta, "Portugal necessita de ter um governo forte e estável e que cumpra as suas obrigações internacionais".

José de Matos, presidente da CGD, considerou que é importante "salvaguardar as condições de estabilidade para o sistema financeiro e estabilidade macroeconómica em geral para o país", ao passo que o presidente executivo do Montepio, José Félix Morgado, salientou que "os impactos sociais que um clima de instabilidade e um clima de retrocesso pode ter" o deixam preocupado.

O presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Faria de Oliveira, frisou que os portugueses desejam que o governo tenha "capacidade de ação estratégica, muita lucidez e realismo", defendendo um "clima de confiança junto dos cidadãos e mercados financeiros e políticos".

Hoje, Cavaco recebe sete economistas (Vítor Bento, Daniel Bessa, João Salgueiro, Luís Campos e Cunha, Teixeira dos Santos, Bagão Félix e Augusto Mateus) e também o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, antes da reunião semanal com o primeiro-ministro.

Manifestação pela esquerda

A CGTP marcou ontem uma concentração nacional para 28 de novembro, junto ao Palácio de Belém, para exigir que Cavaco respeite a Constituição e dê sequência à solução governativa apresentada pelos partidos de esquerda.

"É inaceitável que uma semana após a aprovação da moção de rejeição ao programa de governo do PSD-CDS, que determinou a sua demissão, o Presidente da República persista em manter um governo em usurpação de funções, a gerir negócios", disse o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, após reunião da comissão executiva da central sindical.

Com Miguel Marujo

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