Cavaco lembra Cavaco para admitir deixar Passos em gestão

Líder do PS disse ontem que um governo de gestão "é a pior das soluções". O Presidente recordou o seu governo de de 1987

O Presidente da República admitiu ontem deixar Passos Coelho em gestão, lembrando que ele próprio chegou a estar cinco meses nessa condição quando era primeiro--ministro. Cavaco Silva, em visita ao arquipélago da Madeira, quis mostrar que está imune às pressões, que decidirá no tempo que entender e que dar posse a António Costa não é uma inevitabilidade.

Mas se Cavaco quis passar a imagem de alguma normalidade em ter um governo gestão que se prolongue por meses, quem não parece gostar desse cenário é Pedro Passos Coelho. Depois de ter há umas semanas dito no órgão de cúpula do PSD que não queria ficar a "assar" em gestão, ontem - numa conversa com ex-presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy - o líder do PSD deixou escapar um "julgo que daqui a mais duas semanas a nossa situação será definitivamente clarificada. E haverá um novo governo para negociar com Bruxelas".

Costa: "A pior das soluções"

"A pior das soluções é um governo de gestão. Até nisso o PSD está de acordo", disse ontem à noite António Costa, entrevistado na RTP 1. Segundo acrescentou, "aquilo que o Presidente da República explicitou como sendo importante" para a formação de um governo, a "estabilidade e o suporte maioritário" no Parlamento, "são condições reunidas" pelo PS. Dito de outra forma: "Não há nenhuma razão para se criarem crises políticas artificiais."

Para o líder socialista, um governo de gestão - que é a situação em que Portugal atualmente vive - tem "capacidades governativas muito limitadas" e "nem sequer um Orçamento do Estado pode apresentar".

Voltando a Cavaco Silva - que segue na Madeira mais uma jornada do Roteiro para Uma Economia Dinâmica -, o Presidente começou por dizer que não comentava a crise política, mas acabou por fazê-lo.

Quando questionado sobre se teria uma decisão até ao final da semana, Cavaco Silva fez um repto aos jornalistas, dando "um conselho: vão ver, nos dois casos de crise anterior que aconteceram, um foi em 1987 e outro em 2011, quantos dias esteve o governo em gestão, o que fez o presidente de então e quais foram as medidas importantes que esse governo de gestão teve de tomar". E depois ainda acrescentou com a ênfase de quem aponta uma situação de normalidade: "Eu, quando era primeiro-ministro, estive cinco meses em gestão." E repetiu: "Cinco meses em gestão!"

Cavaco referia-se ao seu governo que caiu na Assembleia da República - a 3 de abril de 1987, por via de uma moção de censura apresentada pelo PRD -, o que fez que o agora Presidente ficasse em gestão até o governo seguinte tomar posse a 17 de agosto. Ora, se tal calendário se repetisse e Passos tivesse essa longevidade em gestão, o Presidente nunca daria posse ao secretário-geral do PS, António Costa, deixando a decisão para o próximo chefe de Estado.

Este sinal não significa que Cavaco não dará posse a Costa, mas, pelo menos, que o Presidente acharia normal e nem sequer inédito não o fazer. O Presidente deu também o exemplo de 2011 porque, apurou o DN, quis exemplificar com casos em que tinha estado envolvido, referindo o exemplo em que José Sócrates esteve 82 dias em gestão já durante a sua presidência. Objetivo: lembrar que é normal estar em gestão. O Presidente da República deu assim a entender que não tem pressa para decidir e garantiu que "a cada passo" que der irá "informar os portugueses".

O Presidente regressa nesta noite ao continente e as audições vão continuar nos próximos dias. O Presidente da República diz saber "muito bem, mas muito bem, o que aconteceu em Portugal quando as orientações adequadas não foram cumpridas".

Durante o dia Cavaco visitou algumas empresas da região da Madeira e esteve sempre acompanhado do presidente da Região Autónoma da Madeira, Miguel Albu-querque. Amanhã, ambos vão fazer declarações públicas. Há expectativa para saber se o Presidente volta a falar da situação política.

"Confronto com a Constituição"

Sem comentar diretamente a sugestão de Cavaco Silva, fonte oficial do Bloco de Esquerda recordou aquilo que o partido tem dito: que o Presidente deve indigitar o mais depressa possível o governo que é apoiado por uma maioria no Parlamento. Ou seja, Costa deve ser chamado a formar o executivo que BE, PCP e PEV concordaram viabilizar.

Já o PCP, numa nota enviada ao DN, considera que "o Presidente da República jurou defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa", pelo que "é inaceitável que adote uma opção de arrastamento e degradação da situação e de grave confronto com a Constituição".

Com Miguel Marujo e João Pedro Henriques

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