Caso Secretas: Porque toda a informação nunca é demais

O embaixador José Júlio Pereira Gomes respondeu ao artigo de opinião de ontem de Manuel Alegre e ao artigo do DN

Nota de Direção
Na história da nomeação de José Júlio Pereira Gomes para o cargo de secretário-geral do SIRP, o Diário de Notícias cumpriu todas as regras jornalísticas, cruzando fontes quando elas eram anónimas e procurando sempre obter resposta das pessoas visadas em cada uma das notícias. Desde o início que Pereira Gomes foi ouvido pelo DN. Ontem mesmo, perante o seu desmentido de que não tinha deixado de enviar um documento que lhe tinha sido entregue em Timor, publicámos a notícia porque tínhamos mais do que uma fonte a confirmar-nos esse facto. Ainda assim, é justo que publiquemos na íntegra a resposta que o embaixador enviou ontem para o jornal, bem como um direito de resposta de Pereira Gomes ao texto que ontem Manuel Alegre escreveu no DN. São dois textos de José Júlio Pereira Gomes.

Manuel Alegre diz, referindo-se a mim, "ofereceu o meu filho como voluntário". É poético e mesmo bíblico. Mas encerra uma contradição insanável. Ou o filho se ofereceu, como vinha sendo a tese heroica, ou eu o teria obrigado a ser voluntário, à força. Mas porquê obrigá-lo a ficar se, como diz Manuel Alegre, eu defendia a saída?

A decisão foi muito difícil, reconheço-o, e entendi que o Gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros deveria falar, separadamente, com cada elemento da delegação e não apenas comigo (se o tivesse feito estaria agora a ser acusado de não ter transmitido as opiniões de cada um...). O filho colocou condições para ficar impossíveis de concretizar. Que outros aceitassem ficar. O que já sabíamos só aconteceria se recebessem ordens expressas da sua hierarquia, e não foi o caso. Terá o seu filho oferecido outros como voluntários?

Recordo ter tido dois telefonemas com António Guterres. No dia 4, quando chego à UNAMET, e no dia 8, quando lhe anuncio que a UNAMET tinha decidido a evacuação. Mas eu, que apontei tudo - hábito antigo - num caderno que sempre me acompanha, posso estar equivocado.

Se havia boas razões para considerar que a melhor decisão era a evacuação da missão? Manuel Alegre sabe bem que sim. Sei que solicitou a quem de direito que determinasse a evacuação.

Tomo a fala de Manuel Alegre como expressão de pai que sofreu, e também de poeta, com quem não quero, a nenhum título, prolongar artificialmente qualquer polémica que, pelo que me diz respeito, já acabou.

José Júlio Pereira Gomes

Resposta ao DN
Fiquei surpreendido com o modo como o seu jornal tratou a notícia de um suposto "plano muito detalhado das forças indonésias para o caso de serem derrotados" que eu não teria reportado a Lisboa. Como lhe referi na minha resposta, trata-se de um boato calunioso. Além de desafiar a lógica elementar. Os diplomatas, nessa matéria, quando pecam é por excesso. Reportam tudo!

Referi-lhe também o que me parece ser também uma evidência. Só me seria possível comentar uma acusação dessa natureza, de forma mais concreta, se me identificar que plano foi esse ou quem faz essa acusação.

Em vez disso, o jornal refere em título que "Diplomata escondeu relatório sobre Timor". E na opinião da direção do jornal diz-se que "o plano nunca foi enviado para Lisboa e, no entanto, tinha sido entregue ao embaixador". É falso. Se o jornal tem provas do que afirma, publique-as.

Para melhor compreensão da minha surpresa, e o absurdo da acusação, digo-lhe apenas o modo como procedíamos na missão. Dados os riscos que todos corríamos, decidi que todas as questões relativas à missão, incluindo as de segurança, seriam discutidas em reuniões diárias com a participação de todos os observadores. No final do dia eram redigidos vários telegramas ao MNE com toda a informação recolhida. Teria sido simplesmente impossível que a informação de "um plano muito detalhado" não fosse remetido ao MNE. Se um plano desses fosse do conhecimento dos membros da missão e eu, porventura, me recusasse a enviá-lo ao MNE tenho a certeza de que os outros observadores, e em particular os meus colegas diplomatas, o fariam. A menos que alguém me tivesse entregue clandestinamente tal plano e eu não o tivesse partilhado com ninguém. Alguém acredita?

José Júlio Pereira Gomes

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