Candidatura de Guterres na agenda de Ban Ki-moon

Secretário-geral encontra-se com Costa e Marcelo. Refugiados é prato forte da agenda das autoridades portuguesas, que assim promovem o candidato que foi alto-comissário

Ban Ki-moon chegou ontem a Portugal já em fim de mandato com dois pratos fortes na agenda dos vários encontros bilaterais que terá: a candidatura de António Guterres para secretário-geral da ONU (exatamente para o lugar de Ban Ki-moon) e a crise dos refugiados.

É como que uma pescadinha de rabo na boca que casa na perfeição na agenda da diplomacia portuguesa: Portugal tem sido mais do que mero espectador na crise dos refugiados, com o governo a assumir que pode acolher até dez mil cidadãos que procuram refúgio na Europa. E, por outro lado, um dos fortes trunfos da candidatura de António Guterres é o desempenho deste (reconhecido a nível internacional) como ex-alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

Ontem à noite foi assim, apurou o DN, no jantar oferecido pelo primeiro-ministro, António Costa, ao secretário-geral das Nações Unidas, na residência oficial de São Bento, com a conversa a fazer-se sobre a crise dos refugiados e a candidatura de Guterres como aperitivo.

Quem também já tinha pensado num acompanhamento para a conversa com Ban Ki-moon foi Marcelo Rebelo de Sousa. A 23 de abril, com um presunto na mão que lhe foi oferecido na Ovibeja, o Presidente da República antecipou a visita do responsável da ONU. "Tenho agora jantares com vários chefes de Estado e com o secretário-geral das Nações Unidas. Este presunto é bom para jantares, é presunto para o secretário-geral das Nações Unidas", explicou-se na altura Marcelo.

"Boa oportunidade para falar"

O encontro será pelas 12.30 e, soube o DN, o Presidente da República também colocará à mesa da conversa o tema da crise dos refugiados e do candidato a sucessor de Ban Ki-moon.

"Vai ser uma boa oportunidade para falar da candidatura nacional do engenheiro António Guterres, que é uma candidatura muito forte, esteve magnífico nas audições e penso que tem condições para conseguir um apoio crescente. Isso seria muito bom para Portugal e para as Nações Unidas", apontou então Marcelo aos jornalistas, referindo-se às conversas informais promovidas em abril na sede da organização em Nova Iorque.

Antes do Chefe do Estado - numa manhã de debate quinzenal no Parlamento -, Ban Ki-moon será também recebido pelo presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues.

Guiné, oceanos e missões de paz

Coube ao ministro dos Negócios Estrangeiros avançar os "quatro temas fundamentais" que Augusto Santos Silva discutiu com Ban Ki--moon. Além dos refugiados, o chefe da diplomacia portuguesa abordou ainda a situação política na Guiné-Bissau, as condições da participação portuguesa nas operações de paz das Nações Unidas e os oceanos, como revelou à Lusa.

Santos Silva notou que, em cada um dos temas abordados, houve "uma grande convergência de pontos de vista, o que não é surpreendente, entre o que é a posição portuguesa e o consenso geral que se forma nas Nações Unidas".

Depois do encontro e do almoço no Palácio das Necessidades, o ministro explicou que Portugal "está ou estará envolvido em duas importantes operações de paz" durante este ano: uma no Mali, com 47 militares, e outra na República Centro-Africana, com cerca de 160 homens, referiu à Lusa Santos Silva.

Já sobre os oceanos (que foi o mote da Exposição Mundial de 1998 em Lisboa), o ministro notou que é "um tema a que Portugal dá muita importância e a que as Nações Unidas também dão". Augusto Santos Silva recordou que Portugal organiza, a 2 e 3 de junho, a Conferência dos Oceanos, "que vem na sequência da Semana Azul, do ano passado, e que será um momento muito importante na preparação da próxima Semana Mundial, a decorrer em 2017 nas ilhas Fiji".

Reconhecimento de Ban Ki-moon

O ministro não falou da candidatura de Guterres, mas a diplomacia também se joga na discrição dos bastidores. Não é de estranhar, por isso, que todos estes encontros aconteçam sem declarações do atual secretário-geral da ONU - à exceção do encontro com estudantes sírios -, sendo apenas permitida a recolha de imagens. Foi assim ontem com Santos Silva e Costa, será hoje assim com Ferro Rodrigues e Marcelo.

Mas o Presidente sintetizou (na véspera da chegada do responsável da ONU) o que esperam as autoridades portuguesas desta visita de Ban Ki-moon: "É muito importante que o atual secretário-geral das Nações Unidas reconheça aquilo que pôde ver na atividade notável do senhor engenheiro António Guterres. Foi notável [enquanto alto-comissário para os Refugiados]. Estou à espera do reconhecimento que vale como um empurrão para o engenheiro António Guterres."

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