Candidatos defendem que portugueses já se sacrificaram demais

Marcelo e Maria de Belém são os únicos candidatos a evitar a recusa absoluta de qualquer acréscimo da austeridade, apesar de admitirem que se está no limite. À esquerda, defende-se a inversão acelerada do rumo

O DN perguntou aos candidatos presidenciais qual o limite para os sacrifícios - nos impostos e não só - que os portugueses podem ainda suportar. E as respostas foram, em geral, taxativas: não há margem para exigir mais. Pelo contrário: é chegada a hora de começar a devolver riqueza à população, para que o país possa crescer.

Marcelo Rebelo de Sousa: Já passou o tempo dos "sacrifícios intoleráveis""

Sobre sacrifícios que os portugueses terão de enfrentar, nomeadamente no domínio fiscal, Marcelo Rebelo de Sousa considera que são passado. O candidato presidencial começou por dizer ao DN que "seria insensato entrar em juízos sobre matérias de governação", mas depois disse ter a "convicção de que a saída da crise vai permitir não se colocar sequer a questão de tais sacrifícios intoleráveis".

Maria de Belém: "Reconhecimento dos direitos humanos"

A candidata Maria de Belém recusa responder em nome dos eleitores sobre quais são os limites. "Não posso dizer se os portugueses têm mais margem ou não para mais sacrifícios. Isso são respostas individuais. De resto, não trabalho com base em cenário", acrescenta.

Mas avisa: há que respeitar a dignidade das pessoas: "As causas que promovo são no sentido de criar as condições para o exercício dos direitos humanos", explica. "Quando as pessoas são demasiado pressionadas ficam sem condições para esse exercício. Vivemos num quadro de reconhecimento dos direitos humanos em todas as nossas políticas e portanto isso deve ser sempre tido em conta. Tudo depende do equilíbrio entre o que se pede às pessoas e aquilo que se pode dar ou para prevenir efeitos adversos."

Sampaio da Nóvoa: Recusa da ideia de "inevitabilidade" dos sacrifícios

Para Sampaio da Nóvoa, admitir novos sacrifícios é partir do pressuposto errado: "A pergunta assenta na ideia de que a existência de sacrifícios é uma inevitabilidade. Recuso esse entendimento."

Foi essa ideia, diz, que serviu para tentar legitimar o que não era legítimo: "A situação a que chegámos assentou precisamente nesse equívoco e levou a que tenham sido levados os sacrifícios para lá do razoável e sustentável: não só as famílias já não suportam mais austeridade, como essas políticas não produzem resultados positivos, empurrando a economia e o país para riscos recessivos e de empobrecimento."

O caminho, defende, deve ser o oposto: "A recuperação do rendimento das famílias e das empresas é que vai permitir ao país crescer e não desperdiçar recursos, bem como evitar futuras necessidades de sacrifícios contraproducentes."

Edgar Silva: "Temos fiscalidade desproporcionada e assimétrica"

Para o candidato do PCP, "há muito que os limites foram ultrapassados em matéria de sacrifícios para a generalidade da população, com os cortes nas pensões e salários, e sobretudo no que respeita à carga fiscal pesadíssima que sobre ela recai". De facto, diz, "a maioria dos portugueses paga impostos a mais e uma pequena minoria, apesar do seu imenso património e fortuna, vai sendo aliviada", considera.

"A situação no nosso país é de uma fiscalidade desproporcionada e assimétrica - os que têm altos rendimentos e património mobiliário pagam pouco, os que têm baixos rendimentos e património imobiliário (em muitos casos apenas a sua casa que estão ainda a pagar ao banco) pagam em demasia", sentencia. "É tempo de implementação rápida de medidas concretas que reduzam a carga fiscal sobre a generalidade da população, desonerem trabalhadores, as famílias, os micro e pequenos empresários, a par de outras medidas que possibilitem o aumento da receita fiscal, por via da taxação dos lucros, dos rendimentos mais elevados e do efetivo combate à evasão fiscal", aponta.

Marisa Matias: Limites já foram "largamente ultrapassados"

Para Marisa Matias, "os limites para os sacrifícios dos portugueses foram largamente ultrapassados, nos últimos quatro anos, pelo governo de Passos Coelho e Paulo Portas". A candidata apoiada pelo BE fundamenta dizendo que "o aumento do desemprego, da emigração, da taxa de pobreza e da falência de pequenas e médias empresas, ao longo desse período, deixou bem claro que o anterior executivo foi longe de mais - "mais longe que a troika", como se orgulhava de dizer".

É por isso que a candidata diz que "a larga maioria dos portugueses e das portuguesas olha com tanta expectativa para a solução encontrada à esquerda, pois ela não só garante a devolução de salários e pensões, como procura restabelecer a justiça social e a dignidade do país".

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