"Calma, não fiz um contrato com as causas fraturantes"

Fomos almoçar com a Teggy ao restaurante O Asiático e embarcámos numa viagem de sabores pelo continente e numa conversa que poderia ser a mesma conversa que teríamos com a nossa melhor amiga

Almoçar com Teresa Caeiro, a Teggy, é como reencontrar uma velha amiga. Fala-se de tudo, da vida, dos filhos, da política, desta coisa de ser mulher. O nosso almoço n'O Asiático, no Príncipe Real, que ela escolheu por sugestão de amigos, aconteceu antes do Dia Internacional da Mulher, mas quem ouvisse o início da nossa conversa poderia ser levado a pensar que estava perante duas perigosas feministas. Nada disso. Teggy acha que ainda é preciso falar de feminismo, mas sem os exageros de queimar soutiens, porque isso foi o que ridicularizou a luta pela igualdade de género; que ainda é preciso falar de feminismo porque, apesar dos avanços extraordinários, as mulheres ainda continuam a ser discriminadas no trabalho, a ganhar menos pelas mesmas tarefas, a preocupar-se se há comida no frigorífico.

"As mulheres são muito mais escrutinadas em tudo, até mesmo na política. Se a mulher é menos eloquente ou se se engana, a tendência é "ah, é mulher!" Se for o homem, é porque se enganou ou está cansado naquele dia."

A ementa e o conceito do restaurante, que vai buscar inspiração à gastronomia de toda a Ásia, era uma novidade absoluta para as duas. O menu apresentava-se como um quebra-cabeças. Mas estava lá o João, que nos serviu do princípio ao fim, para ajudar nesta refeição que foi uma verdadeira viagem de sabores. Depois do couvert, atrevemo-nos numas ostras d'O Asiático, um prato com espuma de ostras e tártaro de novilho. E foi a primeira vez que nos espalhámos à grande na tentativa de adivinhar sabores. Recomenda o chef que antes se coma uma folha verde e se tente adivinhar o sabor. Manjericão? Relva? Estava provado que o nosso paladar não está habituado a novidades. Era folha de ostra, recolhida nas encostas junto ao mar e que, por isso, agarra o mesmo sabor...

Apesar do estatelanço gastronómico, a conversa continuou sobre as mulheres. Com Teresa Caeiro, deputada do CDS e vice-presidente da Assembleia da República, a lembrar um dos maiores flagelos da sociedade: a violência doméstica.

Atrevemo-nos numas ostras. E foi a primeira vez que nos espalhámos à grande na tentativa de adivinhar sabores. Manjericão? Relva? Era folha de ostra

"É um crime de género. Bem podem dizer que também há homens que são vítimas, mas é um crime de género que tem implícito a ideia de propriedade - se não és minha, não és de mais ninguém." Em média, há uma mulher morta por semana, no século XXI. São crimes de uma absoluta barbaridade, sobretudo porque são perpetrados por pessoas próximas. Ainda há uma grande tolerância e complacência por parte da sociedade, que, desde os vizinhos às autoridades, tem conhecimento dos indícios mas mesmo assim não há uma intervenção atempada. E é a mulher quem tem de fugir e procurar uma casa abrigo, de sair com os filhos, enquanto o agressor fica na morada de família."

A música está alta no restaurante, mas o chef Kiko explica que não a pode baixar porque é um trabalho entregue a uma empresa externa. A verdade é que, se de início temíamos que nos incomodasse, a conversa - e a refeição - fluiu de tal forma que nos esquecemos dos decibéis. Fluiu como as cerejas que faziam parte do cocktail shoshu, com destilado japonês, que Teggy recusou de início mas que acabaria por aceitar. Estava sobretudo preocupada com o preço da refeição, não queria abusar... "Sou uma preocupada profissional."

E Teresa Caeiro, deputada, ex-secretária de Estado da Segurança Social, ex-secretária de Estado das Artes e Espetáculos, ex-governadora civil de Lisboa, já se sentiu discriminada pelo facto de ser mulher?

Hesita. "De certeza que já fui. Sentia quando era mais nova "ah, é uma rapariga", havia a tendência de se achar que era a menina do Portas. Muitas vezes pressenti isso..."

Por tudo isto que já conversámos, mudou a sua posição em relação às quotas. "Comecei por não ser a favor, por uma questão de princípio. As pessoas têm de chegar lá pelo seu mérito. Hoje estou convertida porque se não fosse assim, com toda a probabilidade, não teríamos a mesma quantidade de mulheres em cargos de eleição. E o facto de termos mais mulheres também tende a tornar os trabalhos e a atividade mais adequados com os outros deveres da mulher. Agora que a Assunção Cristas é a líder do CDS e que tem uma família, as reuniões da comissão política acabam impreterivelmente à meia-noite. Se fossem órgãos exclusivamente de homens iam até à uma, duas da manhã."

Pergunto-lhe se também estaria disponível para liderar o partido. "Nunca pensei nisso. Nunca me passou pela cabeça, não tenho vocação. Falta-me aquele instinto killer. Em política, se vês sangue queres atacar, a minha propensão é se vejo sangue quero tratar. Sou mais conciliadora. O partido está bem entregue, sou insuspeita para o dizer porque era uma portistas ferrenha..."

Falamos agora da sorte de termos nascido mulheres num país do Ocidente, e se alguma vez pensou nisso enquanto estava grávida. "Tinha quase 38 anos, a preocupação era que corresse tudo bem, não pensava se era rapaz ou rapariga." Teggy é mãe de Pedro, de 10 anos, filho do professor universitário Vasco Rato. Estava dado o mote para o facto de ser conservadora na política, mas de ser liberal nos costumes. É mãe solteira, foi a única voz na bancada democrata-cristã que defendeu a descriminalização do aborto.

O facto de ter sido mãe solteira é uma coisa da vida, não é uma coisa que se planeia nem acho que seja o ideal, mas a vida não é como vem nos livros

"Isso é uma coisa que se me colou, é como se eu tivesse aderido a uma cláusula contratual geral. Como fui liberal e como tive um percurso mais atípico particularmente no CDS, as pessoas pensam que abraço todas as causas fraturantes. Não é verdade! Cada uma das causas merece uma atenção específica. Às vezes noto por parte das pessoas que aderem a essas causas fraturantes quase uma atitude de bullying: "Como é possível tu teres dúvidas em relação à coadoção?" Calma, não fiz um contrato com causas fraturantes! Não sou a centrista de esquerda."

"O facto de ter sido mãe solteira é uma coisa da vida, não é uma coisa que se planeia nem acho que seja o ideal, mas a vida não é como vem nos livros. Já o aborto é condenável, tem de ser combatido e devem tomar-se todas as medidas nesse sentido. Só achei que a solução não era criminalizá-lo."

Foi nos seus tempos de estudante universitária que se deu o clique. Ia a pé para a Faculdade de Direito, mas costumava passar num bairro próximo para ajudar crianças a fazer os trabalhos de casa. Um dia, um dos miúdos disse-lhe que a irmã estava muito mal. Perguntou o que se passava, porque não iam ao Hospital de Santa Maria, a 200 ou 300 metros. Responderam-lhe que tinha feito um aborto ilegal. "Penso que foi determinante para mim para perceber que a solução não passa pela criminalização. Aquela miúda de 16 ou 17 anos podia ter morrido. Algumas terão morrido, outras podem ter ficado impedidas de procriar. Não se pode encarar o aborto com negligência ou leviandade, não nos esqueçamos de que é a interrupção do progresso de uma vida humana. Mas os dados indicam que não houve aumento pelo facto de ter sido descriminalizado."

E agora sou eu quem cai no erro de a ver como adepta de causas fraturantes, ao perguntar-lhe sobre a eutanásia. A resposta é pronta. "Sou sensível a alguns argumentos, mas vou votar contra. Por uma questão de princípio, mas também porque acho que não pode haver vidas de primeira e de segunda. Sei que é a pedido, mas a sociedade não pode embarcar em facilitismo quando está em causa a vida humana e a dignidade da vida. O progresso da medicina já permite cuidados paliativos que evitem o sofrimento, não só dar drogas mas, no sentido holístico, dar apoio espiritual e psicológico."

Ainda não tínhamos falado do seu casamento com o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares, um homem mais à esquerda, digo. "É um social-democrata. Nalgumas coisas é até mais conservador do que eu", diz ela.

E não é difícil estar casada com um comentador político e ser uma política? "É, sobretudo quando diz mal do meu partido e do governo em que participei. Costumo dizer que entro em apneia antes de sair a crónica dele no Expresso e antes de ir à SIC. Quando estávamos no governo... mesmo hoje em dia as críticas que faz. Lembro-me de olhar para os parceiros de governo e dizer "eles devem pensar que eu sei ou que posso ter alguma influência". O que é a mesma coisa que achar que se pode ter controlo sobre um elefante numa loja de loiças..."

Teggy acredita na democracia e na pluralidade de opiniões, logo tem de as levar para casa.

Entrámos em mais um momento feminino e brincalhão do almoço, ao mesmo tempo que nos eram servidas as vieiras tosazu, um caldo à base de soja e dashi. Não resisto a meter-me com ela e lembrar de que está casada com aquele que, em tempos, foi considerado um dos homens mais bonitos de Portugal. Ri-se. Já ouviu falar, mas não se recorda porque na adolescência viveu na Bélgica. Contudo, não resiste: "Ainda é um homem interessante!"

Ela, que gosta tanto de ler e que vive em aflição por não ter o tempo que gostaria para o fazer nem sequer para se manter a par das críticas literárias, quando conheceu Miguel Sousa Tavares, leu a sua obra de enfiada, num mês. "Já baralhava tudo, o Equador com o Rio das Flores, já misturava as personagens... Vou ter de ler tudo outra vez para sedimentar bem uns e outros." O seu preferido é o livro de crónicas Não Te Deixarei Morrer, David Crockett.

Não é difícil estar casada com um comentador político e ser uma política? "É, sobretudo quando diz mal do meu partido e do governo em que participei. Entro em apneia antes de sair a crónica dele no Expresso e de ir à SIC"

Teggy chama-se Teresa Margarida, um compromisso entre a preferência de nomes da mãe e do pai. O avô juntou os dois no petit nom Teggy. A infância e a adolescência desta lisboeta que nasceu há 48 anos no Dia dos Namorados, 14 de fevereiro, foi passada fora do país.

Quando tinha 5 anos, o pai, oficial da Marinha, foi para comandante naval em Cabo Verde e foi em São Vicente que o 25 de Abril os apanhou. Seguiu-se a Bélgica. Tinha 9 anos e só voltaria a Portugal quase com 19, coincidindo com a sua entrada na faculdade. A mãe, uma educadora muito exigente, quis que por lá fizesse os estudos na Escola Alemã, para que falasse alemão, francês e inglês. Teggy recusa que tenha tido uma educação conservadora. "Os meus pais incutiram-nos sempre a ideia de termos de trabalhar para termos dinheiro para os alfinetes, a mim e à minha irmã. Não tínhamos semanada nem mesada, fazíamos uns trabalhinhos de babysitting, eu dava explicações. Na Bélgica fiz de tudo um pouco, desde passear cães a pôr jornais nas caixas de correio. Na altura, não achava necessariamente engraçado, mas quando acabei o curso reparava que havia colegas que diziam "agora sou doutor, não faço um telefonema, não mando um fax". Isto deu-me para me manter sempre ligada à terra, ter sentido prático. Não me passa pela cabeça não ir para uma fila da Segurança Social se tiver de ir. Como não?"

Ingressou no curso de Direito, mas na verdade o seu sonho era outro. "Sempre quis ir para Arquitetura. Em criança não brincava com bonecas, o meu sonho era desenhar e fazer Legos. Fazia casas inteiras, tipo plantas. Fui um pouco influenciada pelos meus pais e porque não era boa a Matemática. Hoje, a minha vida seria completamente diferente, não estaríamos aqui a falar."

E não se arrepende da escolha? "Estou muito contente com a minha vida. Quando era pequenina quis ser florista. Vivia fascinada, mas hoje não tenho jeito nenhum. As plantas chegam-me às mãos e parece que apanham um susto e morrem. A única que me sobrevive é um cato e eu detesto catos..."

João serve-nos agora uma espetada de polvo em pau de gengibre. Teggy confessa que não é grande apreciadora de polvo, mas é impossível não gostar do puré de brócolos. E é entre o polvo pelo qual não morre de amores, embora elogie este prato em particular, que começamos a falar de política. Também não está muito para aí virada - "devia ter adiado este empreendimento, este certame", diz a brincar -, mas seria impossível não abordar os temas quentes da atualidade, como os casos dos offshores, do governador do Banco de Portugal ou até o futuro da geringonça.

Sobre os offshores, admite que a situação não foi a desejável, até o então secretário de Estado Paulo Núncio, oriundo do CDS, o admitiu. "É muito importante ter em conta duas coisas: uma é que isto é o contra-ataque em relação às mentiras do Centeno. Uma coisa é a publicação ou não publicação - decisão que a meu ver não foi acertada -, mas não se pode embarcar na demagogia de dizer que foram 10 mil milhões que voaram, que pertenciam a Portugal e foram daqui para fora. O dinheiro era dos seus proprietários. Se me perguntam se devia haver um movimento internacional para acabar com offshores, acho que são uma batota, mas levava a outra questão."

"Estes 10 mil milhões são transferências que não foram conhecidas por causa de um erro informático que já foi reconhecido por todos, inclusive pelo atual secretário de Estado, Rocha Andrade. Paulo Núncio não podia saber, saíram do radar. Não posso aceitar insinuações de que possa ter havido uma vontade deliberada de ocultar o que quer que seja", sublinha. Sobre se o PSD deveria ter assumido maiores responsabilidades nesta questão, limita-se a dizer que "um governo de coligação é como uma sociedade". "O responsável político é o ministro, que delega competências. As competências são do ministro e, em última análise, do primeiro-ministro. A eventual culpa individual e a responsabilidade política têm de ser compartidas."

Esta "sociedade" não funcionou na Câmara de Lisboa, em que Cristas é a candidata do CDS e o PSD ainda não tem ninguém, apesar de manter que quer avançar sozinho. "A Assunção subiu muito a parada ao candidatar-se, por ser a líder. Antes de avançar falou com o PSD, mas estavam à espera da resposta de Santana Lopes. Se decidirem apoiar a nossa candidata, será um apoio bem-vindo, passará a ser uma candidatura mais abrangente."

Teggy não queria sobremesa, mas foi convencida a embarcar em mais uma viagem de sabores. E é enquanto nos deliciamos com um caril doce, com torta de coco e gelado de iogurte e manga picante, que se fala dos problemas da banca e da dificuldade de destituir o governador do Banco de Portugal - o CDS apresentou já depois deste almoço uma proposta no sentido de o regulador ser nomeado por indicação do Presidente da República. "Há muito a fazer em relação à supervisão. Basta ver o que aconteceu nos últimos oito anos, até na CGD com os créditos malparados de 900 milhões e de mil milhões sem garantias. Foi o BPN, BPP, BES o Banif... O que andam aqueles senhores a fazer? Na CGD, com todos nós a termos de pagar cinco mil milhões de euros. À conta de Domingues e dos e-mails já não se fala da recapitalização."

A sobremesa era divinal. E é já no café que falamos da geringonça. Mas Teresa Caeiro não quer fazer futurologia. Diz que em política dois dias é muito tempo, quanto mais dois meses ou dois anos. Reconhece que é um case study. "Acho que a geringonça vai durar enquanto os parceiros, BE e PCP, acharem que o saldo vale a pena. Quando perceberem que estão a perder mais popularidade por participarem neste projeto, acho que pode cair."

Saímos deliciadas com este desafio gastronómico. E ainda com um remate feminista - ou feminino? - da parte de Teggy: "Acho que nós, as mulheres, somos mais abertas a estas aventuras..."

O Asiático

› Couvert

› 1 água com gás

› 2 soshu

› 1 ostras d"O Asiático

› 1 vieiras em tosazu

› 1 espetada de polvo em pau de gengibre

› 1 caril doce

› 2 cafés

Total: 76,60 euros

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.