Blindados já não são para bairros

O segundo blindado já chegou, mas agora a PSP desdiz o argumento para a sua necessidade operacional.

A confusão adensa-se em torno dos polémicos blindados que o Governo adquiriu para a PSP. Esta semana chegou o segundo dos seis veículos, mas agora a polícia vem contradizer o principal argumento que tinha utilizado para justificar a necessidade desta compra.

"As intervenções nas zonas urbanas sensíveis (ZUS) não foram apontadas como o principal argumento para a aquisição das seis viaturas de transporte de pessoal com protecção balística", declarou fonte oficial da Direcção Nacional da PSP em resposta a um conjunto de questões que o DN tinha colocado com o objectivo de esclarecer a fundo a necessidade dos blindados nestes bairros.

Altos responsáveis desta força de segurança tinham antes declarado que a aquisição destes blindados se devia à sua necessidade para intervir, em situações mais complicadas, nos bairros problemáticos, para além da Cimeira da NATO, que era o primeiro objectivo - falhado - para a sua utilização.

Numa conferência de imprensa, a 29 de Setembro último, o comandante da Unidade Especial de Polícia (UEP) explicou a importância desta compra, a qual não limitava, segundo este oficial, à Cimeira da NATO (nesta altura ainda se esperava que chegassem a tempo). O intendente Magina da Silva disse então o seguinte: "Lembro aos senhores jornalistas que a PSP tem à sua responsabilidade áreas urbanas onde, infelizmente, estão identificadas mais de 300 ZUS , ou bairros problemáticos, e a necessidade de intervenção nesses bairros não se esgota com a cimeira da NATO. São diárias. E nós temos a responsabilidade, que não podemos alijar, de garantirmos a segurança dos cidadãos que moram nesses bairros, a sua maioria cidadãos de bem, e de protegermos os nossos elementos aquando dessas intervenções. Portanto, as necessidades (dos blindados) são permanentes)."

Mas não foi só aqui que este argumento foi utilizado. No caderno de encargos para a aquisição das viaturas é até o único argumento invocado (ver fac-símile em baixo).

Os deputados estão confusos com esta nova posição. "Então afinal para que servem os blindados?" é a pergunta comum do PCP, Bloco de Esquerda e CDS/PP.

O deputado centrista Nuno Magalhães lembra que o CDS "até adoptou uma atitude responsável e de compreensão sobre a necessidade desta compra mas no pressuposto de que a sua utilização não se esgotaria na NATO, mas também seria para combater a criminalidade violenta e grave nas zonas urbanas sensíveis".

António Filipe, do PCP, também não entende esta contradição e considera que "a situação está cada vez mais insustentável". Na mesma linha, Helena Pinto, do BE, ficou "surpreendida" com o recuo agora da PSP, e espera "obter explicações do ministro", na audição que o Bloco pediu a Rui Pereira sobre o assunto e que deverá ser agendada para a semana.

Por seu turno, Paulo Rodrigues, o presidente da Associação Sindical de Profissionais de Polícia, também não percebe a nova posição da sua força de segurança. "Embora tivessem sido pontuais, nos últimos anos, as operações mais musculadas da PSP foram nestes bairros e a utilização destes blindados oferece maior segurança aos polícias que correm risco de vida naqueles casos", afiança.

José Manuel Anes, do Observatório de Segurança, tem uma leitura política acerca da contradição. "Primeiro houve uma justificação técnica, agora é política", assevera.

Recentemente, o ex-ministro da Administração Interna, António Costa, considerou "inaceitável", a utilização dos blindados nos bairros de risco.

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