Bebê-las louras, com gravata, que é como os homens e as mulheres gostam

O calor pede que seja servida fresquinha. E peça-a com espuma, aquela gravatinha irresistível. Este é também o roteiro possível de uma escolha difícil - onde beber boas imperiais ou finos. Uma escolha muito parcial.

Este é o relato de uma tarefa impossível - e injusta. Indicar ao leitor onde se bebem as boas imperiais, os melhores finos. Impossível porque o redator não provou todas, nem nada que se pareça. Valeu-se de inquéritos instantâneos, de memórias mais ou menos recentes, de guias insuficientes. E da ideia de uma página continuamente em construção (mas podem entupir a caixa de correio do redator com sugestões para o verão que aí vem).

Faltam os roteiros que ajudem à tarefa, as revistas especializadas, as páginas de entendidos. Em tempos, o atual secretário de Estado da Cultura alimentou uma página na extinta Grande Reportagem sobre cervejas - e daí resultou um livrinho de Francisco José Viegas feito guia para "não morrer de sede no inferno". Podem tragá-lo.

Depois há os afetos e as companhias, que tornam aquele fino memorável ou obrigam a esconder aquela imperial no recanto mais escondido da nossa memória.

Mais: esta é uma tarefa injusta porque aqui se vão omitir muitas cervejarias, cafés, tascas, bares ou restaurantes onde ela sai da torneira como mandam as regras.

As regras, já se sabe, variam consoante as circunstâncias e os palatos, mas Jorge Sousa - chefe de turno da histórica Cervejaria Trindade, em Lisboa, que guiou o DN num curso intensivo sobre a arte - explica-nos que o copo se quer seco, bem seco (perde-se na história, a história de tasqueiros que não lavavam os copos), e inclinado, qualquer coisa como uns 30º, nem muito próximo do tirador nem muito afastado. Por isso, faz diferença o tempo que se leva do tirador à mesa ou ao balcão, por isso se deve ter atenção.

Quando está quase cheio, endireita-se o copo, dois dedos de espuma, uma gravatinha, a bebida ali na marca dos 20 cl,se for imperial, ou 40/50 cl, se nos atrevermos à caneca. É tudo um jogo de equilíbrios.

Os homens e as mulheres preferem-nas louras. É a clássica lager que domina o mercado, a Sagres e a Super Bock, num Benfica-Porto das cervejas, onde as outras tentam a bravata de jogar de igual para igual. Mas a variedade já se faz ao balcão de uma qualquer boa cervejaria, com louras, ruivas, escuras, mais ou menos adocicadas, ou de travo amargo.

A porter escura e densa que dá pelo nome de Guinness, por exemplo, vive nos bares irlandeses (o Hennessy's ou O'Gilins) do Cais do Sodré, em Lisboa, mas também já se bebe ao balcão da Trindade.

Dizem, porque o redator não teve a possibilidade de ir testar ao vivo e no paladar, que a melhor imperial do País é tirada no Lebrinha, em Serpa. Ninguém sabe explicar o segredo, que é a alma do negócio, mas na Net encontram-se relatos de nortenhos a dar o copo à palmatória, por se tratar de um fino saído com a chancela da Sagres.

Recanto improvável para ir beber a que será a melhor imperial do País, como são outros que se pôde recolher na preparação deste roteiro: no Álvaro, na aldeia da Urra, às portas de Portalegre; no Horácio, em Linda-a-Velha, ou no Eduardo das Conquilhas, na Parede; no Augusto e no Tico-Tico, em Aveiro, ou no Café do Farol, na praia da Barra, ali próximo; no Chez Maurice, com o mar e a praia da Aguda (Gaia), aos nossos pés; no Bar Amarelo, da Praia do Homem do Leme, do Porto, como cantam Os Azeitonas; nas tascas das arcadas da Praça Velha da Guarda; na Praxis, que na Coimbra dos estudantes produz as suas próprias cervejas; ou no Bar Bonaparte, o pub de tipo irlandês que um alemão mantém no Porto, e que vem a ser (palavra de Viegas) "o lugar português mais apropriado para beber a Erdinger".

Em Lisboa, multiplicam-se as cervejarias clássicas, como a histórica Trindade ou a Portugália, a Ramiro ou a Lusitana. Há ainda, no Mercado de Alvalade, a Sem Palavras, ou a Bota Velha, em Campo de Ourique.

É uma amostra modesta, parcial e parcelar. E seca. Há horas que o redator só sonha em sair da redação e poder gozar a companhia de uma loura. Este sol de verão está a pedi-las.

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