Bactéria põe em risco visão de mulher com dois filhos

Ordem dos Médicos abre processo disciplinar ao médico que operou os doentes.

A equipa médica do Hospital dos Capuchos está muito preocupada com a mais nova dos quatro doentes que correm risco de cegar após uma cirurgia numa unidade algarvia. O DN apurou que a mulher de 35 anos - que tem dois filhos pequenos - já foi sujeita a diversas intervenções cirúrgicas com o objectivo de garantir, no futuro, uma possível recuperação. Mas a situação é grave. A infecção foi provocada por uma bactéria extremamente agressiva, que foi identificada pelos clínicos. Os outros três doentes têm prognóstico reservado.

A mãe de 35 anos tem os dois olhos em risco na sequência de uma cirurgia para corrigir a miopia, que implicou a colocação de lentes intra-oculares. Apesar de ter sido operada no mesmo dia que os outros três doentes afectados, foi a primeira a ser referenciada para o Hospital de São José, no dia 22 de Julho, já com uma carta do médico assistente.

Só quatro dias depois, a 26, os restantes três doentes se juntaram a ela no Hospital dos Capuchos. Estes doentes, com 65 anos, 80 e 88 anos, foram operados a cataratas num olho, e também já foram intervencionados pelos clínicos do Hospital dos Capuchos. É possível que no início da próxima semana se saiba qual a causa da infecção.

O médicos holandês, que deve chegar hoje a Portugal, tem estado em contacto com os médicos do Hospital dos Capuchos, traçando informações sobre o estado clínicos dos quatro doentes, que têm sido acompanhados permanentemente por amigos e familiares

O bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, disse ontem que vai ser aberto um inquérito na sequência deste caso, bem como um processo disciplinar ao médico que operou os quatro doentes. O oftalmologista disse ao DN que "situações como esta podem ocorrer em todo o tipo de instituições, mas geralmente devem-se ao tipo de condições em que se exerce medicina".

Minimizando o papel da ausência de licenciamento neste caso, avançou que tem "de haver equipas estruturadas para tratar doentes e que os acompanhem em todo o processo". E exemplificou com a resposta às listas de espera "que levam doentes a ser operados por um médico numa localidade e depois são acompanhados por outros médicos. Neste caso, parece que o médico holandês também exercia actividade cá e na Holanda ao mesmo tempo".

Reconhecendo que estes problemas também acontecem no sector público, salientou que "se estão a aplicar em demasia os critérios de gestão, quando devia ser critérios técnicos".

António Travassos, presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, está preocupado com uma eventual falha nas boas práticas. "Há azares, mas se houve uma falha por negligência tem de ser esclarecida. As pessoas têm de ser tratadas e indemnizadas."

Lamentando a criação de "leis avulsas" e a falta de regulamentação na área da oftalmologia, António Travassos sugere um reforço da fiscalização: "Não é positivo haver polícias, mas devíamos pensar em fiscalizar os actos médicos, nem que fosse através de uma parceria com a Ordem dos Médicos."

Neste caso, alerta que podem ter havido falhas na higiene das instalações ou instrumentos. "Se a bactéria for a mesma, há risco de ter sido passada de um doente para os outros se o kit de cirurgia tiver sido usado em todos, que é uma situação que já aconteceu."

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