Guterres atento à paridade, mas com olhos postos nos conflitos

António Guterres é eleito hoje por aclamação secretário-geral da ONU e faz a sua primeira intervenção perante a Assembleia Geral.

Garantir a paridade de género na ONU pode não ser o problema mais premente de António Guterres, mas deverá ser politicamente incontornável abordá-lo no discurso de hoje como secretário-geral (SG) eleito das Nações Unidas.

Prevenir os conflitos e cuidar dos refugiados e dos mais vulneráveis, combater a exclusão e as desigualdades ou reformar a ONU têm sido temas sempre presentes no discurso de António Guterres, mas a presença das mulheres nas estruturas de topo da organização teve uma enorme relevância política na campanha para eleger o SG.

O ex-primeiro-ministro português, que disse há meses candidatar-se "com humildade e grande determinação" e há dias aceitou "com humildade e gratidão" a escolha unânime do Conselho de Segurança, assumiu desde o início que iria apresentar e implementar um plano para a paridade de género numa organização onde esse pressuposto já consta do seu texto fundador.

Guterres é hoje eleito por aclamação - a exemplo do sucedido nas últimas décadas - pela Assembleia Geral das Nações Unidas como nono SG, iniciando funções a 1 de janeiro de 2017, depois de o Conselho de Segurança ter proposto o seu nome por unanimidade para suceder ao sul-coreano Ban Ki-moon.

Com a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, António Guterres irá discursar após a intervenção do presidente da Assembleia Geral, Peter Thomson (Ilhas Fiji), durante cinco a sete minutos e em inglês e francês.

O embaixador António Monteiro, ex-representante de Portugal junto da ONU e que presidiu ao Conselho de Segurança, admitiu ao DN que António Guterres deverá fazer um discurso "na linha da declaração que fez" na semana passada, a partir do Ministério dos Negócios Estrangeiros e depois de conhecida a decisão do Conselho de Segurança.

Perante um "palco onde vai ter toda a comunidade internacional", o novo SG fará "uma intervenção que marcará a Assembleia Geral... António Guterres é um homem de convicções, teremos sempre algum elemento novo e de diferença que fará recordar este momento", assinalou António Monteiro.

O discurso de António Guterres deverá ter por base o texto com que em abril apresentou aos 193 Estados membros a sua "visão" da ONU, intitulada "Desafios e Oportunidades para as Nações Unidas" e cujas palavras de abertura eram "Nós, os povos".

A centralidade da prevenção na atividade da ONU - porque "a solução é sempre política" - e a ênfase na "diplomacia para a paz", em que "é essencial o envolvimento total das mulheres para alcançar o sucesso em qualquer processo de paz", serão tópicos em que Guterres deverá insistir hoje.

Proteger os mais vulneráveis - as mulheres e crianças em especial - deverá voltar a ser apresentado como uma "prioridade absoluta" do mandato de António Guterres, que há uma semana se comprometeu precisamente com esse objetivo na "terrível complexidade" do mundo atual.

Num tempo em que cresce o fosso entre os EUA e a Rússia, com o conflito da Síria no topo dessas divergências e que levaram Moscovo a vetar uma resolução do Conselho de Segurança - já depois da rara exibição de unanimidade e compromisso que foi o anúncio da escolha de António Guterres - proposta pela França, o novo SG deverá igualmente focar a necessidade de a ONU dar respostas que interliguem as questões da paz e segurança, do desenvolvimento sustentável e dos direitos humanos.

Combater o terrorismo, rever os mecanismos da organização em matéria de manutenção e construção da paz, o apoio da ONU aos Estados membros na implementação das soluções aprovadas, procurar corrigir as desigualdades e exclusão que afetam cada vez mais pessoas em todo o mundo e são uma das causas dos movimentos migratórios, deverão ser outros pontos da intervenção de António Guterres.

Incontornável será também o foco no reforço da cooperação com atores internacionais, sejam instituições financeiras e organizações regionais ou representativas da sociedade civil e entidades privadas.

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