Assessor vai receber taxistas. Marcelo fora da guerra

Associações do setor pediram encontro com Presidente da República, mas quem os vai receber é um assessor. Profissionais dizem querer informar quem toma decisões

O Presidente da República não quer ficar no meio da guerra que opõe taxistas às plataformas de transporte de passageiros Uber e Cabify, como aconteceu no corte do financiamento aos colégios privados - dois movimentos que trouxeram para a rua milhares de pessoas em contestação ao governo. Por isso, os representantes dos táxis vão ser recebidos hoje em Belém, mas por um elemento da Casa Civil, depois de as associações terem pedido, na segunda-feira, uma audiência à Presidência. O encontro acabou por ser marcado para as 15.00 de hoje, o que levou também a que a manifestação agendada para a próxima segunda-feira (dia 17) fosse anulada.

Os representantes da Associação Nacional de Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros (ANTRAL) e da Federação Portuguesa do Táxi vão entrar pela porta lateral do Palácio de Belém, na Calçada da Ajuda, e não serão recebidos por Marcelo Rebelo de Sousa. "O Presidente não fala sobre o que não sabe e a lei [de regulação da Uber e Cabify] ainda não chegou à Presidência", frisou uma fonte de Belém.

Os representantes dos taxistas tinham pedido a audiência a Marcelo Rebelo de Sousa para a próxima segunda-feira, mas foram informados de que o Presidente estaria em viagem oficial à Suíça. Tentaram antecipar o encontro e conseguiram que fosse hoje. Porém, Marcelo não os irá receber pessoalmente para que não haja uma instrumentalização da Presidência. É também por este motivo que se quiserem falar aos jornalistas, após o encontro com um dos assessores da Casa Civil, terão de o fazer fora do Palácio de Belém.

Desta forma, o Presidente tenta demarcar-se da polémica que opõe os taxistas às plataformas online de transporte em carros descaracterizados. Evitando que se repita o episódio de maio, quando Marcelo Rebelo de Sousa recebeu os apoiantes dos colégios com contrato de associação e no final estes divulgaram um comunicado em que citavam o Presidente em declarações de apoio, obrigando o próprio Marcelo a reagir no dia seguinte para sublinhar que não estava do lado dos colégios e que se limitava a receber quem lhe pedia audiências.

Este distanciamento do Presidente não preocupa, no entanto, os representantes dos taxistas. Ao DN, Carlos Ramos, presidente da Federação Portuguesa do Táxi, apontou que o objetivo da reunião "não é pressionar ninguém". "Queremos apenas dar informação, e ponto. Queremos que as instituições que vão ser chamadas a pronunciar-se sobre esta matéria tenham toda a informação possível." E no caso de Marcelo, pretendem que "decida em consciência e de forma livre com acesso a toda a informação".

O dirigente classificou ainda o encontro como "uma reunião normal", integrada "num trabalho de formiguinha de desmontar aquilo que o governo quer apresentar como uma boa solução e que afinal tem problemas".

Também Florêncio Almeida, da ANTRAL, referiu, à Lusa, que não querem "colocar o Presidente da República sobre pressão porque o diploma do governo ainda não foi aprovado, nem foi a Conselho de Ministros, estando ainda em discussão política".

Em causa está o decreto-lei que o governo está a preparar para legalizar as plataformas digitais de transporte Uber e Cabify (as únicas que operam em Portugal). Para os taxistas trata-se de um ataque à classe e à atividade profissional que desempenham. Exigem, por exemplo, um limite ao número de carros que podem operar nestas plataformas. Motivos de contestação que levaram à concentração de cerca de 4000 taxistas na zona do aeroporto e da Rotunda do Relógio, durante 15 horas, na passada segunda-feira.

A lei ainda está longe de ser terminada e as próprias plataformas querem ver melhorias (ver texto ao lado) no diploma que o governo espera concluir até ao final do ano.

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