Arguido garante que não havia manual de procedimentos

O arguido Hugo Tiago Dourado afirmou hoje em tribunal, no julgamento do caso de cegueira do hospital de Santa Maria, que em julho de 2009, não havia manual de procedimentos no setor de produção de medicamentos.

Hugo Dourado, que era farmacêutico no hospital de Santa Maria quando seis pessoas ficaram total ou parcialmente cegas, em julho de 2009, e está acusado de seis crimes contra a integridade física por negligência, sublinhou que o manual só foi elaborado uma semana depois daquelas seis pessoas terem perdido a visão.

O documento foi elaborado para ser enviado a Inspeção-Geral das Atividades da Saúde ainda que dele conste a data de 2007, sublinhou o farmacêutico.

Até à data dos factos, os medicamentos eram elaborados e ministrados segundo as orientações verbais de Regina Lourenço, coordenadora do serviço de produção de cito-toxicos (medicamentos), disse.

Tiago Dourado admitiu ter colaborado na elaboração do manual, juntamente com a colega Isabel Figueira, a pedido de Regina Lourenço.

O farmacêutico referiu ainda que, à data dos factos, não havia normas na rotulagem dos medicamentos, sublinhando que depois do ocorrido tudo "mudou drasticamente" naquele serviço do hospital de Lisboa, sem ter, contudo, exemplificado o que mudou.

O julgamento prossegue esta tarde com a continuação do interrogatório a Hugo Tiago Dourado e Sónia Batista. As testemunhas começam a ser ouvidas no dia 9.

No final da sessão, em declarações à agência Lusa, uma das senhoras que cegou de uma vista disse esperar apenas um pedido de desculpas dos arguidos, uma vez que já os perdoou.

"Errar e humano, mas deviam admitir que erraram e pedir desculpa", disse.

Já Walter Bom, uma das duas pessoas que cegou totalmente, disse esperar que se faça justica.

Maria Antónia Martins, outra das lesadas, mostrou-se dececionada por ter vindo de Vendas Novas de taxi e ter que regressar no dia 9.

O caso está relacionado com seis pessoas que ficaram total ou parcialmente cegas no hospital de Santa Maria, depois de lhes terem sido alegadamente administradas injeções trocadas.

Os factos remontam a julho de 2009 e os dois técnicos respondem pelos crimes de ofensa à integridade cívica por negligência. Alegadamente ambos os profissionais teriam trocado o medicamento, Avastin, que devia ter sido ministrado aos pacientes.

Na acusação, o Ministério Público considerou que a troca de medicamentos "terá sido provocada por falta de cumprimento dos deveres impostos pelo manual de procedimentos".

Contudo, a defesa alegou que, à data dos factos, não existia manual de procedimentos na Unidade de Preparação dos Produtos Citotásticos (UPC), e denunciou ainda a inexistência de supervisão e fiscalização dos profissionais por ordens superiores e por falta de meios humanos na secção.

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