Aos 14 anos assistiu a cirurgia do avô

No âmbito da iniciativa Professor do Ano, o DN convida todas as semanas uma personalidade a recordar os seus tempos de escola. A médica e deputada do CDS-PP Isabel Galriça Neto recorda que aos 14 anos surpreendeu o médico que ia operar o avô ao pedir para ver a cirurgia. Um momento que confirmou a sua vocação e decidiu a sua vida.

Qual é a primeira memória que tem da escola?

É de uma professora a falar baixinho e a dizer-nos que era bom irmos dormir, para descansarmos. Portanto é uma memória doce, colorida e lúdica, de professores a convencer um grupo de crianças a fazer a sesta.

Como é que era em criança e adolescente e que tipo de aluna era?

Tinha características bastante semelhantes às que tenho hoje. Era alegre, viva, com iniciativa e espírito de grupo. Tinha o enquadramento de uma família que foi um pilar fundamental, os meus pais e o meu irmão, sobretudo no ensino de valores. Mas o facto de ter muitos primos também acrescentou muitas vivências à minha infância, desde as férias de verão na Caparica ao próprio contacto na escola. Como aluna era bastante boa. Genericamente era uma aluna aplicada, que me divertia a estudar.

Quando e como é que decidiu que queria ser médica?

A partir da entrada para o liceu. Quando eu tinha 14 anos o meu avô paterno adoeceu com cancro dos intestinos e lembro-me de na altura ter dito ao cirurgião que queria ver a operação. O médico achou que era um pedido muito pouco razoável para uma miúda de 14 anos, mas o certo é que no dia da operação fui para o bloco. Este episódio serviu de confirmação para mim própria que queria ser médica para ajudar as pessoas. Não necessariamente para curá-las, mas para ajudá-las.

Os professores influenciaram muito o seu percurso?

É um assunto sobre o qual tenho pensado muito. Eu própria sou assistente na Facul- dade de Medicina e considero que ensinar é uma das atividades mais desafiantes. Eu não consigo enumerar todos os professores que me marcaram, foram vários. Desde a primária ao liceu, à faculdade e já depois de formada. Mas o que destaco dos professores que foram grandes mestres é a capacidade de transmitir paixão. Foi isso que me transmitiu o meu primeiro mestre em cuidados paliativos, Robert Twycross, em Oxford. Viver e ver os temas com paixão e abrir horizontes. É isso que é mais desafiante e estimulante no ensino. É uma capacidade que admiro com reverência, mas que não se consegue por decreto, faz-se porque se gosta. Ainda no liceu uma das professores que me estimularam bastante foi a professora de Filosofia Adelaide Galvão Teles. Na altura do 25 de Abril tinha acesos debates com colegas que já na altura eram mais de esquerda e foi aí que me apercebi da beleza que é poder confrontar ideias. Hoje, na Assembleia, ainda aprecio o privilégio que é para mim ver a perspetiva dos outros e ver o mundo de outra forma. Os primórdios dessa atitude encontro-os no debate nas aulas de Filosofia.

O ensino é uma questão de vocação, tal como a medicina?

Sim, por isso o primeiro reconhecimento deve ser dos próprios. Ou seja, a minha vénia para a maior parte dos professores não dispensa que os próprios reconheçam o seu mérito. O reconhecimento é uma coisa que hoje em dia aparece associada a grandes eventos, mas há um enorme mérito nos professores que consegues marcar e motivar os seus alunos. É necessário que sejam eles os primeiros a orgulharem-se do que fazem.

O que seria se não fosse médica?

Não me concebo sem ser médica. Eventualmente seria professora de uma disciplina na área das ciências.

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