António Guterres regressa a casa para se tornar doutor

Honoris causa. Não seguiu a carreira académica, depois de ter concluído o curso com 19 valores, mas a escola-mãe quer distingui-lo

A Universidade de Lisboa vai hoje dar um doutoramento honoris causa a um dos alunos mais brilhantes da história do Instituto Superior Técnico. António Manuel de Oliveira Guterres, 68 anos, concluiu o curso com 19 valores em 1971. Por dois breves períodos - a seguir à licenciatura e depois em 2003 - leccionou na escola onde se formou, mas a vida profissional seguiu outros caminhos.

A proposta do doutoramento honoris causa foi avançada pelo presidente do Técnico, Arlindo Oliveira, e bem acolhida pela Universidade que desde 2013 junta as antigas Clássica e Técnica. É Arlindo Oliveira quem vai fazer na cerimónia o elogio do antigo aluno da casa. Sublinhou ao DN que "como o próprio António Guterres afirma, uma formação em engenharia estrutura o pensamento de forma particularmente clara, o que é útil em muitas carreiras, e não só em engenharia".

O presidente do Técnico acrescenta que a carreira de Guterres é "única" e "um exemplo para os atuais alunos, demonstrando que é possível compatibilizar competência técnica com valores humanistas".

"O Técnico sempre teve uma tradição de criar nos seus alunos preocupações sociais e políticas", afirma Arlindo Oliveira, assinalando que "António Guterres não foi exceção e, tal como muitos outros, teve esse tipo de preocupações". Mas neste caso "levou-as, talvez mais a sério do que é comum".

Foi no tempo de estudante que António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas desde janeiro de 2017, começou a empenhar-se em causas sociais. Primeiro na Juventude Universitária Católica (JUC), depois como um dos mais ativos elementos do CASU (Centro de Ação Social Universitáris), ele foi um dos jovens universitários confrontados com a realidade social portuguesa aquando das Cheias de 1967.

Não é apenas o lado social que Arlindo Oliveira destaca em Guterres, mas também a importância do seu exemplo para os atuais alunos "que nem sempre têm uma visão clara do que poderá ser o seu futuro profissional. "No caso de António Guterres - adianta - o exemplo é duplamente importante porque é muito marcante".

No seu percurso profissional, cruzou a formação técnica com ação social que o encaminhou para cargos como o atual e, antes o de Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Sem ter seguido - apesar da excelente classificação - a carreira académica, foi assistente no Técnico da cadeira de Teoria de Sistemas e Sinais de Telecomunicações. Quase 30 anos mais tarde, e já depois de ter sido secretário-geral do Partido Socialista e primeiro-ministro, regressou à escola-mãe como como professor catedrático convidado, em 2003. Neste período foi responsável pela criação das cadeiras de Seminário de Desenvolvimento Sustentável e Seminário sobre Inovação.

Participou, assim, na vaga de inovação e desenvolvimento que por esses anos avançava a nível global. Mas já antes, e ainda enquanto aluno, tinha sido parte integrante da mudança na escola que é a sua alma mater. Isto mesmo contou ao DN José Manuel Tribolet, em conversa tida em finais de 2016, quando Guterres estava prestes ocupar o gabinete na sede das Nações Unidas em Nova Iorque. Tribolet foi colega de Guterres no Técnico e companheiro de estudo - tinham-se conhecido no primeiro dia de aulas, quando foram apresentados à turma como os melhores alunos do ensino secundário. Tribolet vinha do Colégio Militar com a classificação máxima, Guterres do Liceu Camões com menos um valor.

Também no Técnico se tornaram os melhores alunos e foram chamados a participar na reforma do curso, no tempo da reforma de Veiga Simão, conseguindo introduzir novos temas de estudo. "Nós tínhamos uma autoridade impressionante", confessou Tribolet, um pouco perplexo. "Orgulhamo-nos de ter liquidado, durante dois anos, um conjunto de disciplinas que tínhamos herdado do passado. Foi a primeira vez que se mexeu naquele currículo."

Tal como Tribolet, também o Padre Vítor Melícias recordou uma outra caminhada paralela: Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, este último na altura a estudar Direito. Estavam juntos na militância da JUC e os seus caminhos separaram-se já depois do 25 de Abril, quando escolheram partidos diferentes . Guterres entrou para o PS, pela mão de António Reis, Marcelo para o PPD/PSD.

António Guterres já é doutor honoris causa pelas universidades da Beira Interior (Ciências Sociais e Humanas), Coimbra (Economia) e Europea de Madrid.

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