António Costa. Governo tem "manifestamente poucas mulheres"

Primeiro-ministro admite que há "um desequilíbrio grande" no executivo, que tem três mulheres em 17 ministérios. Explicação? "Tem que ver com fatores diversos"

António Costa afirmou ontem que há um "desequilíbrio grande" de género no executivo, admitindo que o governo tem "manifestamente poucas" mulheres. São três em 17 ministérios. Mas sobre o porquê destes números foi menos explícito. "Tem que ver com fatores diversos", disse o primeiro-ministro, defendendo que há um "caminho que tem de se ir fazendo para aumentar o número de mulheres a participar ativamente na vida política".

António Costa respondia à jornalista Maria Elisa, numa entrevista na sede do PS, no Largo do Rato, em Lisboa, para assinalar os três anos do Acção Socialista digital, o jornal do partido. Numa sala com a plateia a metade - ontem e hoje há votações nas federações socialistas, motivo invocado para a ausência de vários notáveis socialistas - , Costa defendeu que já se fez um "grande caminho" na paridade. "Quer na Assembleia da Republica quer nas câmaras, no Parlamento Europeu há uma representação superior a 33%", disse, mas adiantou que há ainda um longo caminho a fazer. E referiu as duas propostas de lei aprovadas na última quinta-feira em Conselho de Ministros que aumentam de 33% para 40% a paridade na Assembleia da República, e uma segunda que impõe a igualdade de género nos cargos de topo da administração pública.

Colocando a igualdade salarial e a violência doméstica como "os dois maiores desafios" na igualdade de género, o primeiro-ministro referiu-se ao primeiro para defender que é uma questão "particularmente complexa porque a lei proíbe a desigualdade mas na prática não é assim. E curiosamente não é assim quanto mais alta é a função profissional e mais qualificadas são as pessoas". Costa lembrou que está em discussão no Parlamento uma proposta do executivo que visa combater o fosso salarial entre homens e mulheres, obrigando a "maior transparência" nas condições remuneratória de cada empresa e a uma inversão do ónus da prova - as "empresas é que terão de provar que a razão por que as mulheres ganham menos tem uma justificação concreta".

Questionado sobre a violência doméstica, especificamente nas relações de namoro, o primeiro--ministro considerou "interessante" a medida aprovada pelo governo francês, que quer instituir um conservatório dedicado à desigualdade e violência de género em todos os estabelecimentos escolares. Para o primeiro-ministro, o programa Escola Segura (que garante presença policial em permanência junto às escolas) "porventura tem de se virar menos para a segurança da escola relativamente ao exterior e mais para a segurança dentro da escola".

Sobre outra desigualdade, a do interior do país, António Costa afirmou que o processo de descentralização que está atualmente a ser negociado com o PSD é uma condição necessária para reduzir as desigualdades no território, mas não será condição suficiente. "O nosso interior há muito tempo que perdeu uma função económica que tem de ser reinventada." "O interior não é nenhuma fatalidade", defendeu o líder socialista, argumentando que chamamos "interior àquilo que é a nossa faixa mais central na Península Ibérica", que "está por aproveitar".

Com a Saúde como pano de fundo, António Costa admitiu que os serviços públicos continuam a confrontar-se com insuficiências que não estão ultrapassadas. É uma declaração que tem ouvido muito dos partidos que apoiam o governo - normalmente acompanhada da exigência de maior investimento público. Agora, por António Costa: "Tivemos anos sucessivos de grande desinvestimento no conjunto de todos os serviços públicos. Se começar numa esquadra e acabar num hospital dificilmente encontrará algum serviço em que o desinvestimento acumulado não gere ou problemas de instalações, ou carência de equipamentos, ou carência de pessoal, ou tudo junto. Diria que não deve haver nenhum em que pelo menos uma destas coisas não aconteça." "O esforço de recuperação é muito grande", concluiu o primeiro-ministro.

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