Amarelos e laranjas aumentam, verdes diminuem

O número de casos mais graves que chegam às urgências dos dois maiores hospitais de Lisboa está a aumentar, enquanto diminuem os doentes considerados menos prioritários, uma tendência que se verifica desde o ano passado.

No Hospital de Santa Maria, mais de um em cada dez utentes que entram na urgência acabam por ficar internados, uma realidade que está a crescer, segundo os números de janeiro deste ano revelados à agência Lusa pela diretora do serviço, Margarida Lucas.

Segundo a responsável, apesar de terem diminuído os utentes nas urgências, aumentaram os casos que terminam em internamento, representando já 12 por cento dos doentes observados.

"Houve uma diminuição de afluência à nossa urgência, mas o perfil dos doentes manteve-se mais ou menos igual à dos anos anteriores, com uma diminuição ligeira na percentagem dos doentes com prioridade verde [menos 4%] e azul e um aumento ligeiro das prioridades laranja e amarelo", afirmou.

A diretora de serviço do maior hospital do país explicou que esta quebra, de 16%, na afluência dos utentes às urgências, se deveu à abertura, em fevereiro de 2012, do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures.

No Hospital de São José verifica-se a mesma tendência de aumento dos casos mais urgentes e diminuição dos menos prioritários, mas a afluência global manteve-se estabilizada de 2011 para 2012.

Segundo o diretor do serviço, Ricardo Matos, aumentaram 14% os doentes triados com prioridade amarela e 0,5% as cor de laranja.

Em contrapartida, os casos menos graves, triados com prioridade verde, diminuíram 5%, acrescentou.

Questionado sobre se tal alteração se deve ao aumento das taxas moderadoras, que ocorreu em janeiro de 2012, o responsável escusou-se a fazer interpretações.

"Não somos políticos, constatamos factos e os factos que temos são esses", afirmou, adiantando que ainda assim, os doentes com prioridade verde continuam a representar metade do total da afluência às urgências.

No Hospital de Santa Maria verificou-se no último ano uma mudança no perfil do utente, com um aumento da idade, o que também terá contribuído para um crescimento dos casos prioritários.

Esta maior procura da urgência por idosos explica-se com o encerramento da urgência do Hospital Curry Cabral no final de 2011, unidade de saúde que cobria freguesias com uma população envelhecida, explicou a responsável do serviço.

Os dois maiores hospitais de Lisboa receberam em conjunto em 2012 quase 900 utentes por dia.

O serviço de urgência de São José admite uma média diária de 435 doentes, que são acompanhados por equipas de mais de 80 profissionais, entre os quais 60 médicos.

Sendo este um hospital de fim de linha (que recebe doentes encaminhados por outras unidades), 7% das admissões na urgência são utentes referenciados por outros hospitais.

O Hospital de Santa Maria recebeu diariamente na sua urgência, em 2012, uma média de 460 casos, tendo janeiro e fevereiro chegado aos 700 doentes/dia, devido ao pico da gripe e ao encerramento do Curry Cabral, enquanto ainda não tinha aberto o novo Hospital de Loures.

Estes doentes são atendidos, entre as 08:00 e as 20:00, por uma equipa fixa e multidisciplinar, criada para permitir uma "maior fidelização dos profissionais ao serviço" e para "desfasar os horários de acordo com os picos de afluência".

Em comum, os dois hospitais registam um aumento de procura em dois momentos específicos do dia: um a meio da manhã (entre as 10:00 e as 13:00) e outro a meio da tarde (entre as 16:00 e as 20:00). Em ambos, 70% dos atendimentos são feitos até às 20:00.

Segunda-feira é o dia da semana em que tradicionalmente acorrem mais pessoas às urgências destes hospitais, o que os médicos explicam com o facto de no fim de semana tenderem a ficar em casa com a família e a adiar a ida ao médico.

Na terça e quarta-feira a procura estabiliza e a partir de quinta-feira começa a descer, até domingo.

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