Alexandre V. Lourenço: "Temos médicos a entrar acima da nossa capacidade"

Alexandre Valentim Lourenço, presidente da secção regional do sul da Ordem dos Médicos, diz que em algumas especialidades o limite já foi ultrapassado o que pode deixar a qualidade em causa

O que são as idoneidades formativas?

É um processo que sofreu algumas adaptações, a maior em 1995 publicado decreto-lei que reformou internato e a forma de atribuir vagas e capacidades formativas ficou escrita. A idoneidade significa que um serviço tem capacidade para formar internos e segundo capacidade de formação. São dois processos feitos em conjunto. Quando falamos que precisamos de mais vagas ou aumentamos a capacidade nos serviços que já têm idoneidade ou criamos serviços com idoneidade e para isso os serviços têm de ter determinados requisitos e demora tempo.

O que verificam para a atribuição de idoneidade?

Vamos verificar se tecnicamente o serviço está correto, se faz as técnicas de acordo com a legis artis, se tem dimensão, instalações, equipamentos. Avaliamos o serviço como estrutura. A seguir vamos observar se existe quantidade de atividade assistencial capaz de formar internos. Temos de perceber se a quantidade de patologia e doentes é suficiente para formar uma pessoa. A terceira coisa que é muito importante é o ambiente formativo. Se há um ambiente em que o diretor de serviço e uma estrutura que não se interessa por formar, os internos que vão para lá vão trabalhar e não aprender. Tem de haver reuniões clínicas, discussão de casos, publicações cientificas. E a quarta dimensão, que é o que vai falhar mais, é ter médicos formadores.

Já chegamos ao limite de vagas?

Um dos problemas que temos nas vagas é que muitas não são de idoneidade total, são parciais. E nos últimos anos têm sido atribuídas sem se contar com o sítio onde se vai fazer o que falta. Um exemplo: um serviço de cirurgia geral que tem capacidade para formar 15 internos. Mas esse serviço vai receber um ano de médicos ortopedistas, um ano de cirurgiões vasculares, cardiotorácica e em vez de 15 internos estão 30. Quando havia mais vagas que candidatos isso não era um problema, havia cirurgias para todos. Neste momento as pessoas que vêm das outras especialidades chegam e vão competir com vagas que já estão sobrelotadas e têm de dividir o número de cirurgias pelo dobro dos internos. É esse o nosso problema. Quando falamos em qualidade de formação significa que estamos a chegar a uma encruzilhada. Para aumentarmos o número, em algumas especialidades, de capacidades formativas temos de baixar a qualidade do médico que sai. Ele não vai conseguir fazer o mesmo que o especialista que se formou há cinco ou seis anos.

Onde é que estamos neste momento?

Há especialidades em que já se atingiu o limite e se ultrapassou. Porquê? Porque os formadores estão a desaparecer. Uns porque se reformam e outros simplesmente porque têm condições mais atrativas noutros serviços e saem. Faltando determinadas especialidades de forma generalizada, ao taparmos o buraco num sítio destapamos noutro. Por exemplo, se não temos anestesiologistas temos blocos operatórios a fechar e não temos capacidade formativa em todas as especialidades cirúrgicas. Se não tivermos capacidade de angariar especialistas não consigo resolver este problema. Esse é o segundo problema.

Como resolver o problema?

Temos de abrir concursos que estão fechados. Não há concursos para chefe de serviço há anos. Saíram 1500 e abriram 250 vagas em dois anos. Os chefes de serviço, que estão a desaparecer dos hospitais e os diretores e chefes de equipa não existem. Estão a ser substituídos por assistentes graduados ou assistentes. Estes que já têm funções de direção não têm funções de formação. Temos de começar a preencher lugares de chefes de serviço e de graduação. Quando as pessoas estão muito tempo à espera de um lugar desses, saem. Vão para outro hospital, fazem medicina privada. Os concursos vão voltar a dar corpo ao nosso grupo de formadores. Segundo, temos um grave problema nos próximos sete anos. Temos médicos em formação a entrar acima da nossa capacidade. Na Faculdade de Medicina de Lisboa estão 3 mil em formação. No contexto atual não consigo formar muito mais.

O que é que se pode fazer?

Têm de se mudar várias coisas. Sempre que abro uma especialidade tenho mais saídas profissionais. Está a discutir-se a especialidade de emergência. Temos mais três especialidades que podem crescer muito. Uma delas é medicina desportiva e as medicina do trabalho e medicina legal. Neste momento tenho de começar a encher o sistema e tenho de o diferenciar. O pior erro que estamos a cometer é piorarmos a diferenciação dos médicos. Se estamos a formar muitos mais médicos de uma forma indiscriminada, eles não vão ter a mesma qualidade quando saem e por isso vou precisar de mais médicos.

Mas já existem especialidades com níveis de formação fracos.

Algumas sim. As especialidades em que as capacidade técnicas estão dependentes da anestesiologia. A cirurgia geral não tem neste momento capacidade para formar muito mais gente. Chumbou um médico de cirurgia geral há pouco tempo num hospital e vários outros não foram levados a exame. E os internos que estão neste momento em formação queixam-se que com o currículo que têm vão chumbar. Em algumas áreas não têm o número de cirurgias suficiente. Se os transferir para outro hospital que está no limite vai ser esse a queixar-se. Se tiver mais anestesista isso não acontece. A troika foi muito má para a medicina e os cortes foram muitos grandes. E nós aumentámos 400 vagas num período em que diminuímos o número de médicos. Ultrapassamos certamente em algumas áreas o limite.

O que vai acontecer no caso do interno que chumbou?

Se um interno chumba, temos de fazer uma visita ao serviço. Temos de perceber se é um erro do interno ou um erro do serviço e neste caso como já temos queixas de outros internos é um erro do serviço. Vamos fazer a visita e verificar.

Em que especialidades já se atingiu o limite de vagas?

Anestesiologia não tem mais capacidade para formar, está no seu máximo. Estando a sair especialistas não têm formadores. Cirurgia plástica temos quatro serviços formadores e duas vagas a mais. Está no limite. O ministro pediu para aumentar o número de vagas e comprometeu-se a dar condições. Medicina física e de reabilitação estão no limite Alcoitão e Curry Cabral têm metade dos médicos e não conseguem formar mais. Psiquiatria e pedopsiquiatria não sei se teremos capacidade para formar muito mais. Oncologia é uma das especialidades que vai crescer e poderá aumentar a formação. Ortopedia tem serviço e doentes mas não tem formadores. Radiodiagnóstico podia formar mais pessoas mas cada vez mais os hospitais contrata fora e usam telerradiologia.

Como é o processo de verificação de idoneidades?

Passa por um um inquérito feito pelo Conselho Nacional do Internato Médico aos diretores de serviço, que depois remete para nós. Inquérito que faz várias perguntas e para cada especialidade tem critérios específicos, como quantas cirurgias faz, se tem reuniões de serviço. Depois pergunta ao diretor quantas pessoas acha que pode ter para formar. Depois há uma comissão de verificação das idoneidades que vai visitar os serviços. Desde que tomamos posse fizemos mais de 100 visitas. Estamos a organizar cursos de auditorias para estes médicos para que a visita passe a ser uma auditoria.

Defende a revisão do número clausus das faculdades.

Sou assistente da faculdade de Medicina de Lisboa há 30 anos. Já tive 20 alunos e já tive 500. O número de assistentes é o mesmo. Sou assistente de ginecologia/obstetrícia. Quando tinha 30 alunos, estavam comigo todos os dias, observavam as mulheres, ganhavam prática. Atualmente não posso pôr dez alunos a observar ginecologicamente uma mulher. Não é ético, não é correto. Por isso o ensino desses alunos passou a ser feito com modelos, livros e hipóteses e não com prática. Como o ensino da faculdade alargou tanto sem capacidade para o fazer, os médicos que acabam as faculdades são mais teóricos e menos práticos e vou ter de dar competências práticas durante o ano comum ou durante o internato de formação especifica.

Exclusivos