Alegre confrontado com insinuações de traição

Alguns militares lembraram passado do pré-candidato

A um dia de se lançar definitivamente nas presidenciais de 2011, Manuel Alegre deu um salto ao passado. Encontrou-se com militares de carreira, hoje na reforma, que, como ele, fizeram a guerra colonial. Ouviu o que queria mas também o que não queria. Um dos participantes insinuou-lhe a acusação de traidor. Outro disse-lhe que em Argel, na Voz da Liberdade, fez o que equivaleria agora a "incentivar os talibãs".

Foi na Gulbenkian, em Lisboa, na V Conferência da cooperativa militar sobre "Portugal Militar em África", organização coordenada pelo general Rodolfo Bogonha. Na mesa para a qual foi convidado tinha, segundo o programa, como moderador, o almirante Vieira Matias (ex-chefe da Armada). Mas o almirante ficou na plateia (em seu lugar foi Loureiro dos Santos, ex- -chefe do Exército e ex-ministro da Defesa). Percebeu-se, quando Vieira Matias pediu a palavra, por que razão preferira a plateia.

"Fomos os maiores protectores daquela gente [as populações negras das então colónias ultramarinas]", disse o velho marinheiro, agora na reforma. Que relatou quantos dos seus homens morreram, e quantos ficaram feridos e quantos nunca recuperaram. "Sentimo-nos traídos por afirmações que eram feitas no estrangeiro por portugueses", concluiu.

Não nomeou Alegre (que na Voz da Liberdade, em Argel, de 1964 a 1974, fazia comentários de apoio às forças nacionalistas que lutavam contra a potência colonial, Portugal). Mas tinha-o claramente em mira e Alegre recusou fingir que nada era com ele.

O histórico socialista recordou então que ele próprio esteve em combate, pela tropa colonial, contra os independentistas, logo em 1961, em Angola. "Vi o meu melhor amigo morrer ao meu lado", contou. E também esse seu amigo era "contra a guerra". O problema, explicou, é que Portugal vivia em ditadura, havia que combatê-la e ele fê-lo.

Foi a mesma resposta que deu a um outro participante no de- bate, o tenente-coronel Bran- dão Ferreira. Este perguntou-lhe como "reagiria agora" se visse alguém utilizar uma rádio, "que até podia ser em Argel", como "pódio para incentivar os tallibans" contra tropas ocidentais nas quais se incluem portugueses.

Alegre explicou: "Havia uma ditadura, faz toda a diferença, hoje vivemos em democracia." "O que fiz foi defender o interesse histórico por uma razão patriótica e de liberdade." "Os apelos que fiz repeti-los-ia hoje", garantiu, num tom de voz mais veemente.

Numa sessão que para o candidato só teve estes dois "percalços", Alegre aproveitou, sobretudo, para elogiar os militares que combateram na guerra e depois, face ao bloqueio político, forneceram a "solução política", com o 25 de Abril. "As Forças Armadas - disse - não foram derrotadas no campo de batalha."

Disse mesmo que o enviou de tropas para Angola em 1961, face aos ataques da UPA (União dos Povos de Angola), onde aconteceram "coisas bárbaras" contra a população branca (e os mestiços), se fez "com razão".

Deixou uma inconfidência, de uma conversa que teve com Amílcar Cabral. Ter-lhe-á chegado a dizer que via o espaço lusófo- no como "uma espécie de Com- monwealth", cuja capital seria rotativa: "Era uma utopia, mas uma utopia bonita."

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