Aldeia da Luz "vive" com promessas por cumprir e saudades da antiga povoação

Na localidade, construída de raiz no concelho de Mourão (Évora), ainda há projetos por concretizar e obras por acabar.

Passados quase 13 anos da mudança para a "nova" aldeia da Luz, a população "vive" com promessas por cumprir e saudades da antiga povoação, submersa pelas águas da albufeira do Alqueva.

Na localidade, construída de raiz no concelho de Mourão (Évora), ainda há projetos por concretizar e obras por acabar, como conta à agência Lusa a presidente da junta de freguesia.

Sara Correia, eleita pela coligação PSD/CDS-PP, considera que "houve pessoas que ficaram melhor", porque receberam uma casa nova, mas "o mesmo não se pode dizer" da generalidade.

Desde logo, porque "muita coisa que foi prometida não foi cumprida", como uma adega cooperativa, que, "por política", foi construída na freguesia vizinha de Granja, um posto de recolha de azeitona, um parque de feiras ou um forno comunitário.

Também "ficaram para trás" outros projetos prometidos pela Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), como "uma marina, uma praia fluvial e um ancoradouro", enumera a autarca, que garante ter "um dossiê" com projetos que "não saíram do papel".

Além disso, continua, "existem ruas que estão projetadas na planta" e que não foram feitas, uma rua que "está calcetada só até meio", o cemitério que "já está lotado" e os esgotos que obrigam a "descargas de água" para evitar problemas "todas as semanas".

"Não vou passar o resto da vida à espera que a EDIA me ajude, mas estou com este problema [o cemitério lotado] em mãos, porque eles há 10 anos não pensaram as coisas devidamente", critica.

As poucas pessoas que andam nas ruas não falam tanto das promessas por cumprir, preferindo recordar os tempos vividos na "antiga" Luz, como é o caso da dona Ermelinda, que tem um café junto ao largo da aldeia.

Sem se alongar muito em conversas, observa que a "nova" Luz "não é nada igual à outra, é complemente diferente em todos os sentidos", admitindo, contudo, que "no início não gostava", mas agora já vai "gostando".

O vizinho João Chilrito vai mais longe ao dizer que a população "tem perdido muito do convívio que tinha na antiga aldeia", considerando que o Alqueva "matou o concelho de Mourão" e que só deu "vida à margem direita" do Guadiana.

Já Domingos Fernandes, que diz ser uma exceção, porque "não estava apaixonado pelas pedras da calçada" da antiga aldeia, entende que os problemas da terra "são os que existem no país" e prefere "mil vezes" a nova povoação.

Dona de uma mercearia, Rosa Farias diz que as pessoas "não ficaram pior", sobretudo, ao nível das habitações, mas surgiram "novos" problemas, como o dos esgotos, em que "andam sempre a abrir buracos por causa dos entupimentos".

A EDIA, contactada pela Lusa, argumenta que a atual "lista de queixas foi muito aumentada" e todos os projetos agora reclamados "não constam" no acordo definitivo de compensação, assinado em agosto de 2013, altura em que pagou 112 mil euros à junta de freguesia.

A empresa do Alqueva refere que "tem manifestado muito boa vontade em assuntos que não envolvam pagamentos diretos, para além dos identificados no acordo definitivo", adiantando, por exemplo, que já cedeu "o terreno para a ampliação do cemitério".

Já a presidente da junta contrapõe que o acordo refere-se apenas à reposição de património da antiga na nova aldeia e que o documento só foi assinado pelo seu antecessor porque se chegou a "um ponto de falta de força".

No dia 08 de fevereiro de 2002, as comportas da barragem do Alqueva foram fechadas, conduzindo à submersão da antiga aldeia da Luz.

Entre o verão e o outono daquele ano, pessoas, bens, plantas e animais foram mudados para a nova aldeia, criada de raiz e situada a cerca de três quilómetros da velha povoação.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG