Advogado torturado com martelo para pagar três milhões

Três homens espancaram, em 2014, o advogado Francisco Cruz Martins. Acusação foi conhecida agora

Foi uma viagem de terror para o advogado Francisco Cruz Martins. Sequestrado em fevereiro de 2014 por três indivíduos junto à sua casa, no Estoril, foi brutalmente espancado e esfaqueado numa perna até Sintra. No caminho, os agressores até lhe partiram um dedo mindinho com um martelo. Na origem das agressões terá estado uma eventual dívida de três milhões de euros ao empresário António Leal da Silva.

Segundo a acusação do Departamento de Investigação e Ação Penal de Sintra, ao mesmo tempo que Cruz Martins era espancado, os agressores gritavam ao advogado "tens de pagar ao Leal", "tens de pagar ao Leal". Porém, Leal da Silva, apesar das investigações do Ministério Público, não foi acusado pelo crime de autoria moral.

Já na zona de Rio de Mouro/Cacém, Cruz Martins foi largado numa estrada. Os sequestradores ainda lhe terão roubado um relógio no valor de 22 mil euros e um fio de ouro no valor de seis mil euros.

Francisco Cruz Martins é um advogado conhecido no meio dos negócios. Chegou a trabalhar no escritório de Rui Gomes da Silva, vice--presidente do Benfica. Em 2009, o Estado angolano apresentou contra si e outras pessoas uma queixa-crime na Procuradoria-Geral da República por burla. Em causa estava um processo de compra de ações do Banif nos anos 90 do século passado. Angola terá financiado o advogado e dois empresários portugueses para avançarem como testas-de-ferro para a compra das ações. Porém, os portugueses terão, de facto, comprado um lote considerável de ações mas, posteriormente, tê-las -ão revendido a Horácio Roque, ex-presidente do banco. Já durante a investigação, Angola e os portugueses terão chegado a acordo, o que levou que a queixa fosse retirada.

Apenas um acusado

Depois da investigação da Unidade Nacional contra Terrorismo da Polícia Judiciária ao caso das agressões, o DIAP de Sintra apenas conseguiu identificar um dos alegados agressores do advogado. O indivíduo encontra-se em prisão preventiva e será julgado, como consta do despacho de pronúncia de 9 de outubro deste ano.

No documento do tribunal de Sintra constam as lesões provocadas a Francisco Cruz Martins: "Em consequência da atuação do arguido e dos dois indivíduos que o acompanhavam, Francisco Cruz Martins sofreu um hematoma epicraniano, uma fratura da falange do quinto dedo da mão esquerda, hematomas diversos na face, no crânio, na mão esquerda e nas coxas, um derrame conjuntival direito, uma ferida na coxa direita com 4 cm de comprimento e 5 cm de profundidade com laceração muscular grave (...), outra ferida na perna direita com 2 cm e duas feridas na face dorsal da mão esquerda e na face palmar."

O Ministério Público ainda ponderou acusar Leal da Silva como autor moral do crime, porém, não recolheu indícios suficientes para lhe imputar tal facto. Apesar de o próprio empresário ter avançado com um processo contra Cruz Martins por burla qualificada. Segundo esta queixa-crime, já revelada pela revista Sábado, Francisco Cruz Martins, depois de ter apresentado, em 2005, a Leal da Silva um investimento num projeto imobiliário, terá acrescentado à proposta a ideia de "levar os fundos para o estrangeiro". Algum tempo depois, o advogado começou a fazer-lhe "transferências mensais". E quando, em 2007, António Leal da Silva quis comprar uma casa no Estoril, Francisco da Cruz Martins tê-lo-á aconselhado a não a adquirir em nome próprio porque "o seu património respondia perante o contrato de financiamento celebrado com o BPN".

O imóvel acabou por ser comprado, por 420 mil euros, em nome da Xaroco - Sociedade Imobiliária SA, de que Francisco Cruz Martins é presidente do conselho de administração. António Leal da Silva mudou-se para lá e a relação entre os dois correu bem até meados de 2011, quando rebentou o chamado processo do Banif, no qual existiam suspeitas de desvios de dinheiro do Estado angolano.

Um dos suspeitos era precisamente Francisco Cruz Martins. À revista Sábado, o empresário declarou: "Ele deixou de me fazer os depósitos mensais quando foi o caso Banif", diz António Leal da Silva. "Comecei a pressioná-lo para me devolver o dinheiro e ele dizia que tínhamos perdido quase tudo na Bolsa", disse. "Depois de eu muito insistir entregou-me um documento a dizer que a casa me pertencia mas recusou--se a passá-la para o meu nome."

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