"A nossa libertação do Euro está para lá da vontade do PS"

Entrevista a Vasco Cardoso, 39 anos, membro da Comissão Política do Comité Central do PCP

Críticas ao governo pela forma como geriu a polémica da CGD, avisos ao PS quanto ao caminho a seguir para o desenvolvimento do país e a valorização do papel do PCP nos "avanços" do orçamento, marcam esta entrevista a um dos jovens quadros comunistas, em vésperas do Congresso

O PCP apontou ao governo "opções erradas" na gestão do processo da CGD. No entanto, votou ao lado do PS, na passada semana, contra a obrigatoriedades dos gestores tornarem públicos os seus rendimentos. Não há aqui uma contradição?

Não, de todo. Identificamos três aspetos em que o governo se afastou daquilo que o país precisava. Primeiro, escolheu uma administração que vinha de um banco privado, que traduz aquilo que o governo pensa que deve ser a gestão da Caixa e que merece o nosso desacordo. O segundo aspeto foram os vencimentos, no nosso entender escandalosos. Terceiro, foi o incompreensível arrastamento do problema da apresentação dos rendimentos dos administradores. Estes erros deram azo a toda uma campanha de desestabilização da CGD, dinamizada pelo PSD e pelo CDS, com responsabilidades do governo. Quanto ao facto de não termos alinhado na votação da passada semana foi simplesmente porque entendemos que, apenas iria servir, como se provou, para agudizar ainda mais a crise. Como era sabido o Tribunal Constitucional iria tomar medidas até final do ano. A aplicação de uma lei, como a que foi aprovada pelo PSD, CDS e BE, que só teria efeitos em janeiro, era um ato inútil.

Foi determinante a falta de apoio político do BE ao governo para este desfecho?

O BE deve falar por si e assumir as suas responsabilidades.

O governo justificou a escolha destes administradores com o argumento de que é no setor privado que estão os melhores gestores para tornar a Caixa mais competitiva... Onde iria o PCP buscar administradores?

É discutível dizer que é no setor privado que estão os melhores gestores. Onde é que eles estavam os gestores do BPN, do BPP, do BES, do BANIF? Era todos gestores de primeira linha... Os gestores privados não têm nenhuma lição a dar aos gestores públicos. O perfil dos administradores tem que estar em linha com aquilo que o Estado quer para a CGD. Se os objetivos forem de reforço do banco público, de defesa da poupança dos portugueses, de apoio à economia nacional, tem que ser alguém que esteja identificado com isso. Estamos perfeitamente convencidos que existe na sociedade portuguesa quer no setor privado, no público, ou no meio académico, gente capaz de assumir este espírito.

Mas neste momento já há um plano de recapitalização aprovado, com determinadas condições, como fechos de balcões e rescisões de contratos com trabalhadores. Uma nova administração terá de manter este plano..

Reconhecemos a necessidade de recapitalização da Caixa, mas não apoiamos as imposições europeias que acompanham esse plano. Pensamos que a presença da CGD deve ser reforçada em todo o país, para acompanhar o desenvolvimento e a economia nacional.
O PCP afirmou que o Orçamento de Estado (OE) para 2017 não era o seu OE, mas registou alguns "avanços". Jerónimo Sousa tem dito que o caminho está cada vez mais estreito. Como será em 2018?
Valorizamos todos os avanços por mais singelos que possam parecer. Por traz deles está uma luta intensa travada a longo dos anos - veja-se o exemplo valioso das 35 horas da administração pública - e a intervenção decisiva do PCP. Neste OE destacaria o aumento das pensões. Não haja dúvidas que o que mais contribuiu para que se atingissem estes resultados foi a persistência do PCP. Tudo quanto são avanços positivos neste orçamento têm a marca do PCP. Agora, de facto, o caminho vai ficando cada vez mais estreito. Há três constrangimentos que o povo português precisa de afastar do seu caminho para ter o desenvolvimento a que tem direito: a submissão ao euro e as imposições da UE, que têm tido um efeito devastador no nosso país; a dívida, que no nosso entender deve ser inevitavelmente renegociada. Pagamos de juros oito mil milhões de euros pelo "privilégio" de, no próximo ano, termos exatamente a mesma dívida; e o domínio monopolista da banca. O PCP considera que o Novo Banco é boa oportunidade para que o Estado reforçasse o controlo público sobre a banca. Não deve ser privatizado. Não se pode gastar 4/5 mil milhões de euros de dinheiros públicos num banco privado para depois o devolver de novo à especulação financeira e da gestão privada e, daqui a uns anos voltarem os portugueses a ter de ir tapar um novo buraco.

Mas esse é um caminho que o PS não vai seguir...

A nossa libertação do Euro está para lá da vontade do PS. É um problema do país. Os efeitos da presença do euro não dão alternativas. O crescimento registado será sempre anémico, insuficiente para as necessidades do país. Basta olhar para os 15 anos de integração na moeda única, durante os quais o país ou esteve estagnado ou em recessão. À medida que se agudizam as contradições com a UE é evidente que essa matéria se impõe. E nem precisa de ser o PCP a colocá-la. É a própria realidade. Devemos preparar-nos para essa libertação do Euro. Não podemos, em nome de uma moeda única que não serve os interesses nacionais, mas os da Alemanha e das grandes potências da UE, condenar o nosso país a níveis de investimento, crescimento económico e desemprego que são indignos de um país soberano. Quando o governo faz uma proposta de correção do défice de 1,6% está a dizer que 2000 milhões de euros que podiam ir para o investimento público, vão para o abatimento da dívida. É uma sangria de recursos, um saque ao nosso país. Pensamos que o que é insustentável e ficar como estamos.

Tendo em conta que as mais recentes sondagens dão quase uma maioria absoluta ao PS, não receia o PCP que esse tipo de posições lhe tire já reduzido espaço de intervenção que ainda tem?

Está a falar com um partido político muito longe de ter no centro das suas preocupações as sondagens. O PS bem pode dizer que essas questões, da dívida, do euro, do controlo público da banca, não se colocam. Mas os factos são teimosos e a realidade aí está a demonstrar os problemas estruturais do país. Sabemos que o PS não só não acompanha estas nossas posições, como teve e tem um papel determinante na construção destes constrangimentos. Para Portugal andar para a frente é preciso remover esses obstáculos do nosso caminho.

O PCP gostaria de alterar alguma coisa na posição conjunta assinada com o PS, em 2015?

Há uma grande lição a tirar da conjuntura política que se vive no nosso país: a perceção de que o determinou os avanços e as medidas positivas não foi o PS ter mudado de opinião. Foi a correlação de forças que se estabeleceu. Se os trabalhadores e o povo português querem ir mais longe na melhoria das suas condições de vida, têm que dar mais força ao PCP. O que limita outras respostas mais audazes não é a posição conjunta, são os constrangimentos. E é isso que é preciso remover para avançar.

Os militantes do PCP propuseram mais de 1500 alterações ao projeto de resolução política do Comité Central, durante a discussão do documento com as bases, concluída este fim de semana. O apoio do PCP ao governo PS foi difícil de explicar aos militantes?

O registo que temos, de centenas de reuniões que tivemos de preparação coletiva do Congresso que tivemos, é que os militantes estão sintonizados com as opções do partido e os combates travados.

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