A não biografia do homem que "tinha tudo para ser tudo" no país

Historiadora Maria de Fátima Bonifácio apresenta hoje a obra sobre António Barreto, descrito como um "senador do regime" e alguém que abandonou precocemente a vida política

"Não fez sugestões, não fez reparos, não fez críticas, nem insinuações. Foi então que verdadeiramente percebi quanto era autêntico, profundo e incondicional o respeito de António Barreto pela liberdade dos outros." É desta forma que a historiadora Maria de Fátima Bonifácio se refere ao sociólogo, seu amigo de longa data - há quatro décadas, para ser mais preciso -, que decidiu biografar... não biografando de forma clássica.

A obra António Barreto - Política e Pensamento, que será apresentada hoje, às 18.30, em Lisboa, pelo historiador Rui Ramos, é, segundo a autora, um livro não autorizado, apesar de Maria de Fátima Bonifácio o ter dado a ler ao amigo assim que o concluiu. Descrevendo-o, logo no arranque da obra que nasceu por "curiosidade", como político, intelectual, opinion leader, académico e "senador do regime", a autora faz uma incursão pela vida de António Barreto, dividindo-a em duas grandes gavetas: política como ação e política como reflexão.

E vai do nascimento, em 1942, no Porto, do pequeno António, que na verdade era grande - media 62 centímetros e pesava seis quilos -, até ao pensamento atual sobre a pólis e o que o poder local tem vindo a fazer nas principais cidades do país.

A esse propósito, em entrevista à autora, Barreto considera que, "globalmente, o que nós fizemos do espaço público em Portugal é um desastre total". "Mal feito, vistoso e piroso, piegas e mal-amanhado, mal construído, dinheiro mal gasto. O máximo que os 40 anos de liberdade nos deram foram centenas e centenas de rotundas", prossegue o sociólogo.

Mas há mais. No retrato de vida de uma figura incontornável do país (quer antes quer após o 25 de Abril) e que é mesmo apelidado como alguém que "tinha tudo para ser tudo o que há para ser em Portugal", são também retratadas a resistência ao salazarismo e a militância no PCP e no PS, o apoio à Aliança Democrática (AD) e a precocidade com que desempenhou funções governativas.

Basta, para isso, ver que em setembro de 1975 Barreto foi chamado para o VI Governo Provisório por Mário Soares e Jorge Campinos, que quase o encostaram à parede, ainda antes de o executivo anterior, chefiado por Vasco Gonçalves, ruir. "Você vai para o governo", disseram. Ainda jovem, Barreto mostrou reservas. Queria conhecer melhor o país. Soares não acedeu. Aliás, a 26 de setembro desse ano, Barreto estava de casaco de bombazine e não tinha gravata quando Soares o chamou ao telefone: "Estou à sua espera para tomar posse daqui a um quarto de hora, [...] já dei o seu nome ao Presidente da República, já está assinado, o termo de posse está feito." E lá foi Barreto, numa tremenda correria, buscar uma gravata - emprestada de um empregado de bar - à York House. E assim assumiu a Secretaria de Estado do Comércio Externo, dado que, como ele próprio afirma, "eles [os comunistas] já tinham ficado com o Interno".

Entre muitos episódios intrigantes, Maria de Fátima Bonifácio lembra também que aos 34 anos Barreto já era ministro do Comércio e do Turismo, tornando-se um fenómeno de "precocidade" política, que conduz ao inevitável paradoxo de que, se tinha todas as condições para ser o que quisesse, por que razão acabou por não ser? Aliás, a autora nota que o antigo governante fechou a porta da política ativa também de forma prematura, em 1991. Tinha 49 anos. E procura explicar porquê.

Forjado em Vila Real, que achava abafada e bafienta mas pela qual tinha uma enorme paixão, Barreto leu e conheceu autores como Miguel Torga, mas apercebeu-se de que Trás-os-Montes não chegava quando regressou da Suíça - para onde fugiu com apoio do PCP para evitar a Guerra Colonial. Antes, em 1958, Humberto Delgado deu-lhe um "choque". "Mexeu comigo", contou à Visão.

Já a relação com o universo comunista foi substancialmente diferente. O convívio com liberais e esquerdistas, o legado do Maio de 68, a invasão da Checoslováquia na primavera desse ano e a "perceção do conservadorismo" do PCP fizeram-no bater com a porta. E contribuiu para uma carta aberta, explicando em conjunto com cinco camaradas os motivos da saída. "Sair pela esquerda", fundamenta.

Hoje, sente-se isolado na defesa de uma revisão constitucional que passe, por exemplo, pela alteração do sistema político. Assumindo não ter jeito para fazer uma carreira política até ao fim, é cristalino na síntese que faz nas páginas da Visão: "Perdi na vida política."

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