"A ministra da Administração Interna tem dado uma lição a toda a gente"

Augusto Santos Silva, chefe do governo em exercício, diz que Constança Urbano de Sousa está a dar "a lição de não fugir às responsabilidades"

O ministro que está a chefiar o governo entende que a sua colega da Administração Interna não está "refém" do que possa vir a ser concluído pela comissão independente de peritos que foi aprovada pela Assembleia da República. Augusto Santos Silva faz grandes elogios a Constança Urbano de Sousa, que considera estar "a dar uma lição a toda a gente por não fugir às responsabilidades". Explicando o que entende por não fugir às responsabilidades, defende que isso implica "contribuir para que tudo se apure", mas também nesta fase crítica dos fogos "contribuir para que o sistema de proteção das populações e dos bens funcione".

Santos Silva chega a utilizar "linguagem militar" para defender a ministra da Administração Interna, a quem elogia por "da maneira mais exigente, que é justamente permanecer no posto de comando, fazer o que alguém nesse posto tem de fazer nestas circunstâncias". Para o ministro dos Negócios Estrangeiros, todos os ministros estão na "mesma posição transitória ou precária" porque "dependem sempre da avaliação do primeiro-ministro".

Sobre as conclusões que o governo possa vir a apresentar, mesmo antes da comissão independente começar a funcionar, o ministro socorre-se de um provérbio bem português que "se aplica que nem uma luva a estas circunstâncias". Para Santos Silva, o governo é "preso por ter cão e preso por não ter", porque "ao princípio criticava-se a possibilidade de o governo esconder informação. O governo nunca escondeu a informação, pelo contrário, tem usado uma política de total abertura da informação: recebe respostas, publica-as imediatamente". E por isso acusa: "Passou imediatamente a ser acusado de intoxicar com informação a mais."

Augusto Santos Silva defende que faz todo o sentido o governo fornecer toda a informação e tirar conclusões, porque "seria compreensível que o governo estivesse parado à espera de fins de outubro e do relatório da comissão independente". O ministro defende que o governo espere pelo relatório da comissão técnica independente para daqui a dois ou, no máximo, três meses, mas salienta que "há muita coisa que é preciso fazer nestes dois ou três meses também no campo da prevenção e no da resposta a situações de emergência".

Para o ministro, "é preciso fazer um cadastro muito rápido das propriedades, identificar os proprietários, ajudá-los na reconstrução das suas economias".

Augusto Santos Silva mostra-se preocupado com as "várias empresas que viram as suas instalações danificadas", acrescentando que "algumas delas terão de recorrer a lay-off, outras não é preciso apoiá-las". De igual forma, o governo revela urgência tendo em conta que "há famílias que perderam tudo e a quem é preciso apoiar rapidamente".

O assalto aos paióis de Tancos tem um custo reputacional

"Todos sabemos que uma reputação demora muito a construir e pode desfazer-se numa hora. Também acontece isso com os Estados." É desta forma que o ministro dos Negócios Estrangeiros reconhece de forma clara o impacto do assalto aos paióis de Tancos, reafirmando, no entanto, que "a imagem externa de Portugal não foi afetada no essencial" porque "Portugal é um aliado confiável, que age em função da agenda multilateral e dos compromissos internacionais e é um dos países mais seguros e pacíficos do mundo".

Em relação à imagem do país, Augusto Santos Silva salienta o facto de os países europeus e da Nato serem sempre "muito cautelosos e prudentes" quando analisam estes incidentes que "ocorrem no quintal do vizinho", porque sabem que "todos estão sujeitos a eles". Sobre a fuga de informação para um jornal espanhol com a lista do material roubado, o ministro considera que "o governo espanhol não tem nenhuma responsabilidade nisso" e, por isso, não foram pedidas explicações a Madrid. Santos Silva salienta que sempre que há uma fuga de informação em situações como esta, "sempre que o segredo da investigação é violado, a investigação fica mais difícil".

O ministro assegura que "os canais diplomáticos de que dispomos funcionaram imediatamente", acrescentando que eles funcionam a diferentes níveis. Sem querer falar especificamente de cada um em particular, o governante lembrou que "eles funcionam a nível da cooperação militar, do ponto de vista do canal diplomático, do ponto de vista da cooperação das polícias e da cooperação dos serviços de informações".

Para o ministro, que substitui o primeiro-ministro quando ele está ausente, a questão do assalto a Tancos ganha relevância quando se sabe da "dimensão que hoje atinge a criminalidade organizada, designadamente o triplo tráfico de seres humanos, de drogas e de armas com a interconexão que tem com as redes terroristas".

O que aconteceu em Tancos, para Santos Silva, "é um facto muito grave, porque instalações militares foram assaltadas e foi roubado material de guerra". Perante este facto, para o ministro, "a relevância e a gravidade destes acontecimentos não devem ser escondidas nem desvalorizadas". Sobre a responsabilidade política do ministro da Defesa, Santos Silva lembra que "essa responsabilidade está bem determinada nas leis, que estabelecem com clareza as responsabilidades políticas e as de natureza operacional".

É pouco importante saber se a popularidade de António Costa baixou

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, a chefiar o governo na ausência de António Costa, defende os ministros que estão a ser postos em causa na sequência do incêndio em Pedrógão Grande e no caso do roubo de armas em Tancos. Para Santos Silva, "estes factos são suficientemente graves e os seus efeitos negativos para podermos desvalorizar a espuma política", em que se procura saber "se o governo perdeu o estado de graça, se é preciso retomar a iniciativa política, se está à defesa ou está na ofensiva".

Augusto Santos Silva vai mais longe e diz que "mais importante e urgente do que sabermos se a popularidade de António Costa baixou ou se o PSD conseguiu um novo fôlego" é "reconstruir o território" destruído em Pedrógão Grande. O ministro dos Negócios Estrangeiro, na entrevista que será publicada amanhã no DN e na TSF, garante que não critica os pedidos de demissão feitos pela oposição por considerar que "fazem parte do jogo normal da oposição e da dialética normal do Parlamento", mas acrescenta que "o dever de todos é contribuir para a solidez das instituições e não para o seu enfraquecimento", até porque "quem apaga os fogos são os bombeiros, quem trata das pessoas nas estradas é a GNR, quem trata das comunicações necessárias para os combates aos incêndios são os técnicos do sistema de comunicações e quem nos garante a segurança perante as ameaças externas são os militares". Assim sendo, conclui Augusto Santos Silva: "É preciso muito respeito por eles." Sem pôr em causa o papel da oposição, Augusto Santos Silva sugere que o debate político não seja "apenas sobre a espuma política" mas "sobre a substância das políticas". O ministro, ao contrário do que tinha sido defendido por Pedro Nuno Santos em entrevista ao Público - de que "estamos perante dois fenómenos de origem e natureza diferente" -, coloca os dois acontecimentos em pé de igualdade do ponto de vista político, considerando que, "seja em relação a Tancos seja em relação a Pedrógão Grande, enquanto está em curso o processo ou os seus efeitos o nosso dever é conhecer e apurar os factos e assumir as responsabilidades que venham a ser apuradas".

Santos Silva, que neste momento coordena a ação do governo, considera que responsabilidade política "significa assumir plenamente o dever de conhecer o que se passou, informar o público e agir em consequência". O ministro diz que existe "o dever de apoiar as instituições, que também foram vítimas do que aconteceu". E lembra que "as Forças Armadas e a Proteção Civil, sistemas tão importantes para a nossa segurança, necessitam de um enfático e totalmente inequívoco apoio".

Augusto Santos Silva lembra que existem áreas políticas, como sejam "as forças e os serviços de segurança, a diplomacia e a Proteção Civil", em que, em nome do sentido de Estado, "mais importante do que os meios orçamentais" são "a continuidade da política e o respeito pelas instituições".

A entrevista a Augusto Santos Silva foi gravada na quinta-feira, ao final da tarde, e poderá ser lida na íntegra amanhã na edição em papel do Diário de Notícias ou em dn.pt e ouvida na TSF

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