A mesma motivação de sempre a meio ano da reforma

Depois de 26 anos a ensinar na telescola, Maria do Carmo Leitão abraçou o desafio de voltar ao 1.º ciclo e usou as novas tecnologias para cativar os seus alunos. É a professora de novembro 2012.

Depois de 35 anos a dar aulas, Maria do Carmo Leitão está pronta para "dar lugar aos mais novos", mas nem isso diminuiu o seu entusiasmo para encontrar soluções que motivem os alunos, sobretudo os que têm mais dificuldades. Nos últimos anos encontrou esse "motor de arranque" nas novas tecnologias e, desde então, não tem parado de desenvolver projetos inovadores, que já lhe valeram vários prémios, da Microsoft ao Ministério da Educação. Desta vez, foram as colegas de sempre a achar que Maria do Carmo merecia também o reconhecimento neste último ano e a candidatá-la ao prémio Professor do Ano do DN.

"Ainda no ano passado, no âmbito do Ano Europeu do Envelhecimento Ativo, organizou uma iniciativa em que duas turmas do 1.º ciclo ensinavam os mais velhos a trabalhar com os computadores. O que fizemos foi pegar no trabalho que ela tem feito", conta a colega Helena Gama.

Um trabalho feito sempre no interior do País. A escola onde dá aulas agora, vinda da EB1 de Várzea de Abrunhais, encerrada há dois anos, depois de ter recebido o prémio de escolas inovadoras da Microsoft, "é um luxo, é de top", nas palavras da coordenadora Leopoldina Borges. O Centro Escolar de Lamego Sudeste abriu em 2009 e, salvo pequenos problemas na pintura, parece novo a estrear. O edifício moderno sobressai na paisagem de Ferreirim, uma freguesia rural com menos de mil habitantes, a cinco quilómetros de Lamego. E todas as manhãs recebe 130 crianças do 1.º ciclo e 37 no pré-escolar, das aldeias em redor.

Na sala da professora Maria do Carmo o quadro é interativo e há computadores Magalhães espalhados pelas mesas. Nos quadros onde as crianças afixam os seus trabalhos há também um diploma que receberam da Microsoft há poucos dias e que Inês, de sete anos, insiste em mostrar, orgulhosa da "senhora professora". Toni, que está a repetir o 3.º ano, assume o papel de técnico e tenta resolver todos os problemas que o computador da sala está a dar no primeiro dia depois das férias. O menino de oito anos mal sabia ler no início do ano e a informática ajudou a conquistá-lo. "Há poucos dias, a mãe dele veio contar-me que estavam a ver um filme e ele não parava de falar baixinho. Quando ela percebeu que ele estava a ler a legendas ficou tão contente que veio contar-me", diz Leopoldina Borges.

Uma pequena vitória de uma estratégia que envolveu criar uma conta de correio eletrónico para Toni e enviar-lhe pequenas mensagens. "Para responder ele tinha de ler e escrever, e melhorou bastante", conta a colega Helena Gama.

O gosto pelas novas tecnologias veio da telescola, onde trabalhou durante 26 anos. Ou pelo menos o desembaraço que foi obrigada a desenvolver. "No início, as emissões eram em direto e se a antena não funcionava era um problema. Também não havia eletricidade e o quadro era alimentado por um gerador, primeiro a petróleo e depois a gasolina. Todos os fins de semana andávamos com bidões de gasolina para trás e para a frente."

Quando a telescola fechou, em 2006, confessa que teve medo da mudança para o 1.º ciclo. "Pensava: 'Será que consigo?' Mas na verdade gostei. Nunca pensei que gostasse tanto." Usar o Magalhães na sala de aulas foi também um desafio: mas com persistência e a ajuda e do filho, que utiliza como consultor, tem conseguido que os computadores não sejam apenas para jogar: servem para fazer filmes, bandas desenhadas, pesquisar e partilhar conteúdos na Internet, no blogue da escola e no Facebook da turma.

A sua sala de aula "pode parecer desordenada" a quem chega - até porque este ano tem alunos do 1.º e do 3.º anos -, mas tem a sua própria organização e sobretudo "abertura para a criatividade e iniciativa" dos mais pequenos. Os mais velhos ajudam os mais novos a rever a matéria dada no primeiro período, um "trabalho de tutoria" que, tal como o trabalho com os computadores, estimula a autonomia e autoestima dos alunos. "Muitas vezes diz-se que os miúdos são irrequietos porque acabam um trabalho e ficam impacientes à espera dos outros. Os meus aproveitam e vão trabalhar num projeto no computador. Não é preciso dizer-lhes. O que eu quero é que eles se sintam bem na escola, na sala de aulas e gostem de aprender", conta.

Para o diretor do agrupamento, Carlos Dinis de Almeida, o trabalho da professora Maria do Carmo é um bom exemplo de "como a motivação não é propriedade exclusiva de quem está em início de carreira". E o diretor fica contente pelo "amplo reconhecimento" que esta tem tido.

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