A história de Erica, a criança açoriana que perdeu o sono e a inocência

A menina de 11 anos que foi torturada e quase violada pelo vizinho, no prédio onde vivia com os pais, em São Roque, ilha de São Miguel, regressou à escola na semana passada.

Erica, 11 anos, voltou à escola, na vila de Lagoa, de mãos dadas com a mãe, Vera Marques. Foi de óculos escuros para esconder os hematomas que ainda subsistem, quase um mês depois de ter sido sequestrada, amarrada e torturada por um vizinho no próprio prédio onde vivia, na freguesia de São Roque, em Ponta Delgada, ilha açoriana de São Miguel. A criança voltou à vida, frágil de atenção e concentração depois de noites passadas com pesadelos. Agora aninha-se todas as noites na cama da mãe, de onde já tinha saído há anos.

Os pais mudaram-se para a vila de Lagoa, a 15 quilómetros de São Roque, onde estão os avós maternos e a escola de Erica. A criança não quer voltar ao apartamento onde tudo aconteceu.

O crime ocorrido no rés-do-chão direito da Rua Congregação de São José de Cluny, na periferia urbana de Ponta Delgada, marcou a menina de 11 anos, que por pouco escapou, acreditam fontes policiais, à violação e à morte.

"Em 25 anos de polícia nunca vi nada assim", afirmou ao DN o coordenador da Polícia Judiciária dos Açores, em Ponta Delgada, João Oliveira.

Ganhou medo de estar sozinha

Depois de se passar por um convento franciscano e um jardim com árvores centenárias, desembocamos no Largo do Chafariz, no centro de Lagoa, onde vivem os avós maternos de Erica. Na cozinha, Vera e a avó materna da criança, Maria dos Anjos, choram assim que se fala do que aconteceu.

"A minha filha tem medo de estar sozinha, nem à casa de banho consegue ir sem companhia. Agora tem pavor de estranhos, só fala bem com os que conhece, como o professor e o padre", conta Vera, mãos cruzadas sobre a mesa e rosto lavado em lágrimas. Toda a família é católica praticante mas a dor ultrapassa agora a força da fé. Mesmo com parcos recursos, os pais tiveram de sair da casa que ainda estão a pagar ao banco e alugar uma outra residência, em Lagoa. A criança, traumatizada, não quer regressar ao prédio onde perdeu a inocência da infância. "Por favor não me levem para aquele apartamento", escreveu Erica num bilhete que entregou aos pais, ainda estava internada no Hospital de Ponta Delgada, sem conseguir falar e com as ligaduras a taparem-lhe o rosto e a cabeça.

"Porquê eu, mãe, porquê?"

O receio de que Erica pudesse ficar com lesões cerebrais permanentes está afastado. Mas as lesões invisíveis, as psicológicas, são muito profundas. "Porquê eu, mãe, porquê?", pergunta todos os dias Erica, que descreve à mãe as imagens que tem do agressor a atá-la de mãos e pernas, a atirá-la para a cama, a colocar-lhe as mãos na boca e a puxar--lhe a língua. "Não me sai da cabeça, mãe, eu quero que ele morra", diz a criança.

Erica é católica praticante, neste ano vai fazer a profissão de fé e nunca antes desejara a morte de alguém. Está a ser acompanhada por uma psicóloga, com quem já teve duas consultas.

Vera Marques, 34 anos, descreve a filha como "generosa e lutadora". Antes de voltar às aulas, Erica fez um cartaz, no hospital, para os seus colegas e professores com a seguinte mensagem: "Lutei, lutarei sempre, hei de lutar!"

"Todos a mimaram na escola no primeiro dia. A professora deu-lhe caramelos e as outras crianças ofereceram-lhe doces", conta a mãe. As palavras de Vera saem embrulhadas em soluços, os olhos procuram respostas. Pega no telemóvel e mostra-nos o rosto da filha: antes e depois das agressões. Antes: uma menina bonita e sorridente, de cabelos compridos escuros. Depois: um rosto inchado e disforme, irreconhecível.

Erica tem mais três irmãos, um deles bebé de 1 ano, e uma família unida à sua volta. Na mesa da sala da avó materna Maria dos Anjos, a estátua do Santo Cristo representa a fé desta família.

Vera tinha atravessado há pouco tempo uma depressão por causa de um acidente de trabalho do marido. Está desempregada. João, o pai de Erica, trabalha numa fábrica de pneus e quando o DN esteve nos Açores estava hospitalizado com um problema de saúde.

"As assistentes sociais ajudam--nos na alimentação. Mas só queríamos que nos arranjassem temporariamente uma casa porque agora vamos perder dinheiro se vendermos o apartamento do prédio em São Roque", afirma Vera.

Pai quis saber o motivo do crime

O que aconteceu é do domínio do incompreensível. Apenas a um quarto de hora de Lagoa, na freguesia do Livramento, a dois passos da igreja, fica a casa de outra família que também está a carpir a sua dor entre quatro paredes. Lúcia e Fernando Pereira, de 63 e 66 anos, respetivamente, são os pais do agressor, Leonel, de 44 anos. Rejeitaram o apoio psicológico que a junta lhe ofereceu. Pessoas que trabalharam na agricultura a vida toda, criaram cinco filhos e fizeram a sua moradia aos poucos, são respeitados por toda a comunidade, também pelos avós maternos de Erica que os descrevem como "boa gente". "Ele é meu filho mas eu penso mais na criança. A pequena vai ficar para sempre com o trauma na cabeça!", lamenta Fernando.

O pai de Leonel foi à cadeia de Ponta Delgada ver o filho antes de este ser transferido para a prisão de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, onde estaria mais protegido dado o alarme social que o crime gerou. "Eu perguntei-lhe: meu filho, porque fizeste isto? "Eu não vi nada, pai. Foi uma nuvem que me passou pela cabeça.""

Lúcia Pereira leva-nos à sala de estar e traz uma fotografia do filho quando estava na tropa: "Só depois da tropa é que ele começou a beber. Até aí, era muito esperto, ajudava o pai na terra, era bom filho, o mais velho de cinco irmãos", conta a mãe de Leonel, a tentar conter as lágrimas .

O marido, Fernando Pereira, de olhos azuis e expressão amigável, diz que ele e a mulher pensam na criança, em como estará. Quando sabem que o DN esteve a visitar a outra família, Lúcia pergunta-nos logo: "E como está a menina?"

O casal diz que não quer assistir ao julgamento de Leonel, quando este for marcado, em Ponta Delgada. "É nosso filho, não vamos desistir dele, mas ir ao julgamento não. Ele vai ficar preso, claro que sim. Que Deus lhe perdoe!", lamenta Fernando. Este é um pai que trabalhou sempre na agricultura e com o seu suor foi alargando a casa da família até à moradia grande com quintal que é hoje.

Lúcia conta que o filho casou aos 22 anos com uma rapariga da freguesia de Feteiras, a Helena. Divorciaram-se há seis anos: os problemas de Leonel com o álcool e a cocaína contribuíram. "Aquela porcaria estragou-lhe a vida! Que eu nem sei como é aquilo, nunca vi", lamenta Fernando, referindo-se à droga.

O filho de Helena e Leonel tem hoje 21 anos e trabalhava com o pai num talho na Ribeira Grande. No dia 14 de março, o filho de Leonel foi buscar o pai ao bloco residencial em São Roque para seguirem para o trabalho. Já só viu o pai a ser detido pela polícia. "O meu neto não tem os problemas do pai. É bom rapaz e atinado, não se mete na bebida nem nas drogas", garante o avô. Leonel tinha atualmente uma namorada, uma mulher de 36 anos, dona de um talho em Ponta Delgada, que mantém o contacto com os pais dele, tendo manifestado o seu apoio emocional à família.

Os únicos antecedentes criminais de Leonel são pelo crime de violência doméstica, num episódio em que agrediu a mãe e a irmã em casa, "descontrolado com as drogas", segundo conta o pai.

Fernando e Lúcia não têm como ir ver o filho à cadeia em Angra do Heroísmo. "Mandámos umas roupas para ele, para a prisão, mas não podemos ir vê-lo. Sai muito caro", explica o pai de Leonel.

Crianças voltaram a brincar na rua

A Rua da Congregação São José de Cluny, em São Roque, separa as duas fileiras de prédios de um bairro construído há oito anos para trabalhadores no comércio e serviços de Ponta Delgada. Voltou a rua a ser povoada por crianças a brincar e a andar de bicicleta, um mês depois do ataque a Erica. "A única mudança que vejo é que alguns pais agora acompanham os filhos no parque infantil", conta Adriano, jovem morador. Todos os habitantes com quem o DN falou veem o caso como atípico, algo exterior, que aconteceu a outros.

No dia 14 de março, uma das crianças do bairro foi sequestrada dentro do prédio onde vivia depois de ter ido depositar o lixo à rua. A mãe, Vera, estava no segundo andar direito, onde viviam, com os outros três filhos pequenos. O pai, João, estava a trabalhar na fábrica de pneus. Leonel Pereira, 44 anos, o agressor, talhante de profissão, vizinho no rés-do-chão direito, agarrou Erica quando esta entrou no prédio e levou-a para dentro. "Só me dava punhadas, punhadas, punhadas!", contou a criança à mãe, quando conseguiu falar. Enquanto a agrediu, Leonel "nunca falou". Erica ainda tentou abrir a maçaneta da porta do quarto com a boca, mesmo amordaçada, conta a mãe.

A Polícia Judiciária está convencida de que o fim da menina seria a morte. Escapou por causa do alerta dado por uma amiga da mesma idade, Joana, residente no 1.º direito, com quem Erica tinha combinado ir brincar depois de vir da rua. Joana, que estava sozinha em casa, até deixou a porta entreaberta à espera de Erica. "Senhora, eu não quero assustar, mas pareceu-me sentir um grito sufocante", alertou Joana para a mãe da amiga. Passara pouco tempo depois de Erica ter ido levar o lixo à rua. Vera chamou, repetidas vezes: "Erica." Ninguém respondeu. "A amiguinha insistiu que ouviu gemidos vindos do andar de baixo." Vera ligou ao marido, o marido telefonou à polícia. "Ainda toquei à campainha e bati à porta do vizinho do rés-do-chão direito. Senti barulhos, o meu coração estava em alerta." Entretanto, chegou a PSP. Joana insistia que ouvia "gemidos vindos de baixo".

O pai de Erica chegou ao mesmo tempo e chamou pela filha. "O meu marido ainda perguntou ao vizinho do rés-do-chão direito: "Viu alguma coisa, vizinho, a minha pequena desapareceu!"" O agressor veio à janela"em tronco nu e todo suado". Assim apareceu à polícia. "Eu vi a Erica levar o lixo mas ela entrou num carro cinzento", disse ele. Vera sabia que não podia ser, a filha foi educada para nunca entrar em carros de estranhos nem aceitar nada de desconhecidos. A polícia bateu à porta, ele abriu, no chão havia um rasto de sangue. A criança estava no quarto do agressor. "Mãe, eu fingi que estava morta, foi quando ele parou", contou Erica à mãe, depois de conseguir falar.

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