A "geração extraordinária" que levou luz e água a todo o país

PS evocou os seus presidentes de câmara eleitos nas primeiras autárquicas. António Costa diz que esta foi a geração "que abriu caminhos" e "foi essencial" para o país

Há dois anos a filha de António Costa espantou-se quando o primeiro-ministro lhe mostrou o sítio em que passava férias quando era miúdo em Lagoa, no Algarve: não tinha luz, nem água. "E não estávamos a falar de uma pequena aldeia do interior, estávamos a falar de um concelho do Algarve, que já na altura era um grande destino turístico do nosso país", apontou Costa, falando ontem na homenagem do PS aos seus autarcas eleitos nas primeiras eleições do poder local há 40 anos.

Na casa de férias do pequeno António havia "um frigorífico que funcionava a botija de gás" e "não havia uma torneira de onde jorrasse água". Ela, disse o primeiro-ministro da filha, "olhava para mim como se eu fosse um extraterrestre", como se fosse possível que alguém "tivesse vivido num mundo onde pudesse haver frigoríficos que funcionavam a bilhas de gás" e sem água canalizada.

Foi "uma geração absolutamente extraordinária, que teve de fazer tudo desde o princípio", como a definiu António Costa, que fez o país avançar. "Era assim que o país era há 40 anos e foi esta geração que abriu caminhos, que transformou esses caminhos em estradas, eletrificou, levou água, fez depois saneamento, muita daquela obra que é invisível mas foi essencial para alterar a qualidade de vida do país", apontou o primeiro-ministro e secretário-geral socialista, na sessão evocativa ontem ao fim da tarde, na sede nacional do PS, em Lisboa.

Depois do "desafio dos equipamentos", "há agora o enorme desafio do desenvolvimento económico e do desenvolvimento social", apontou o líder socialista na homenagem em que estiveram presentes 36 autarcas do partido eleitos a 12 de dezembro de 1976 (na altura, o PS fez eleger 115 presidentes de câmara), incluindo Ruth Arons, 94 anos, que foi presidente da Junta de Freguesia de São Mamede, em Lisboa, e em nome de quem o líder socialista agradeceu aos autarcas.

Costa notou que "estes 40 anos" têm de ser "devidamente assinalados como sendo o maior passo descentralizador que tivemos". O plural é do país e é esse passo que o primeiro-ministro quer agora dar de novo a tempo das eleições autárquicas de outubro, dizendo esperar que "dos autarcas a eleger em outubro deste ano" possam vir a "ter mais meios, mais competências e mais responsabilidades, para poderem servir ainda melhor as suas populações e poderem contribuir ainda mais para o desenvolvimento do país".

António Costa não se alongou muito sobre o que serão as propostas do Governo neste capítulo da descentralização, já prometidas para este mês. O primeiro-ministro socialista já tinha saudado em dezembro aquilo que o PSD pôs na mesa em matéria de descentralização. Os sociais-democratas querem aprofundá-la no campo da Educação (nos ensinos básico e secundário), da Saúde (nos cuidados de saúde primários) e da Cultura, entre várias medidas de um pacote que foi recusado, uma primeira vez, no Parlamento, em sede de Orçamento.

Sem que Costa antecipe eventuais entendimentos com o PSD, ontem na evocação dos socialistas foi exibido um vídeo onde o líder histórico do PS, Mário Soares, aparece a defender, em 1976, que os vários partidos concorrentes a essas eleições autárquicas "têm de colaborar em benefício das regiões" e que "isso poderá limar algumas arestas que existem entre os partidos e pode ser salutar em favor da democracia".

Estávamos muito longe de geringonças, mas o PS - como o país de então - piscava à esquerda, como se ouviu num dos hinos socialistas recuperados no vídeo: "Nem capital, nem ditadura,/ nem monopólios, nem fortunas, /na vitória de uma vontade /socialismo é liberdade." E no final todos posaram para a foto. "Muito bem", rematou Costa.

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