"A escola é quase um lugar de milagres"

Máximo Ferreira é astrónomo e diretor do Centro Ciência Viva de Constância, nasceu numa aldeia e num meio em que "não dava para sonhar muito", mas foi andando até entrar na universidade, aos 26 anos. Com um importante papel na divulgação da astronomia e vários livros escritos sobre o tema, Máximo Ferreira recorda os dias de estudante e a escola como lugar de milagres, na entrevista desta semana sobre educação, no âmbito da iniciativa DN Professor do Ano.

Quando começou a frequentar a Escola Industrial e Comercial de Abrantes, o que é que queria ser?

Na altura, queria ser eletricista numa metalúrgica onde já trabalhava. Fiz a escola industrial à noite, porque a minha família não tinha posses para eu estudar. Fiz a primária na escola primária de Montalvo, a aldeia onde nasci. A escola era pequena, tal como a aldeia e depois de terminar a primária fui trabalhar. Era preciso ter 14 para nos inscrevermos nos cursos noturnos e eu, que tinha começado aos 12 como moço de recados numa metalúrgica do Tramagal, tive de esperar para me inscrever.

Não sonhava vir a ser astrónomo?

Quer as condições familiares, quer as da aldeia não davam para sonhar muito. Depois fui andando e fui sonhando. Na escola industrial tive um bom desempenho, inscrevi-me na Marinha e depois em Lisboa fui estudando em externatos e ia fazer os exames ao liceu D. João de Castro.

Que idade tinha quando entrou na universidade?

Já tinha 26 anos. Tinha sido colocado no Planetário Calouste Gulbenkian, da Marinha, dedicado à parte técnica, porque nos últimos tempos estava na área de eletrotecnia. Naquela máquina de representar o céu fui percebendo como é que tudo funcionava, além do que tinha aprendido na escola. Foi por isso que escolhi Física na universidade, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Qual é a memória mais antiga que tem da escola?

Andava para aí na terceira classe. Da primeira e da segunda, curiosamente, não tenho memórias. Na terceira lembro-me que saía da escola à tarde e tinha de levar duas cabras que a minha mãe tinha para o mato e que também levava a sacola para fazer os trabalhos da escola. De vez em quando ainda passo por esses sítios, quando vou em busca de memórias, e vejo os locais onde fazia moinhos de água e o sítio onde tentei fazer um relógio de sol pela primeira vez. Era uma vida muito ligada à natureza e ao campo. Lembro-me, já muito mais tarde, no liceu, de uma nota muito boa a Inglês, porque fiz o exame no dia a seguir a ter desembarcado de um submarino, onde estude afincadamente.

Teve algum professor que o marcou?

As duas professores da primária. Uma delas encontrei-a há pouco tempo, já não a via há 40 e muitos anos. Era uma jovem professora e foi ela que me ajudou a estudar para a admissão ao liceu, que depois acabei por adiar. Lembro-me de um bom professor que tive no externato, não só pela forma como ensinava, mas sobretudo pela postura.

Mais tarde dedicou-se ao ensino e teve um importante papel na divulgação da astronomia e da ciência. Como é que vê o papel da escola e dos professores?

A escola é quase um lugar de milagres. Digo quase, apenas porque há alguma exceções. A generalidade dos professores quase que faz milagres. Não só na gestão do seu tempo, mas também das suas capacidades, como professores e psicólogos, porque muitos jovens têm problemas que resultam dos seus ambiente familiares. Na integração das diferenças na aprendizagem. Não conheço outra instituição como a escola e nos tempos que correm só quem tem muito amor à profissão é que fica. Muitos jovens conseguem aprender e adquirir princípios que lhes permitem sobreviver a dificuldades familiares.

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