"A desvalorização tem sido criminosa"

O DN lançou a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores docentes do País, com a ajuda das comunidades educativas. Hoje, continuamos a refletir sobre esta profissão, em entrevista a Carvalho da Silva, sociólogo, ex-secretário-geral da CGTP, que sublinha a importância do professor e conta os seus regressos à escola

Que recordações guarda dos seus tempos de estudante?

Fui estudante em várias fases da minha vida e continuo a ser estudante. Primeiro fiz a primária, depois interrompi para trabalhar, voltei à escola industrial, parei novamente e aos quarenta e tal anos fui para a universidade tirar a licenciatura e depois o doutoramento. Por isso a minha experiência é que houve uma evolução extraordinária. Um avanço muito grande nas metodologias, nos relacionamentos entre professores e alunos.

Que é que o marcou mais nessas diferentes fases?

As coisas que mais me marcaram foi logo na primária: ficou claro que os filhos dos burros eram os filhos de pobres, que não tinham meios e eram sujeitos a métodos muito violentos. Isso felizmente avançou muito. Depois a escola industrial mostrou-me a irracionalidade do sistema dualista, que agora o Governo parece querer trazer de volta. Aí fazia-se uma diferenciação e consolidação incrível por estrato social. Nessa altura era impensável para o meu pai que eu fosse para o liceu, por exemplo.

Nesse percurso houve professores que o marcaram particularmente?

Tive muito bons professores, quer nas aulas de acompanhamento na licenciatura e no doutoramento e não quero estar aqui a relevar um. Mas por exemplo a minha professora da primária na quarta classe marcou-me muito, mas já nem me lembro do nome dela (risos). Em regra encontrei muito bons professores.

O que faz a diferença num bom professor?

A capacidade de se relacionar com os alunos é fundamental, no aspeto humano, Depois no aspeto pedagógico a preparação que dá para a própria disciplina, nem todas as pessoas têm vocação para todas as disciplinas. É preciso que tenham identidade com a profissão e com os saberes que ensinam. E a preocupação em abrir horizontes, de fornecimento de estrutura para o pensar e o agir e aí acho que estamos bem servidos.

Tendo em conta que é professor, como vê a profissão hoje em dia?

Há uma desvalorização do papel do professor e isso é observado em todos os níveis de ensino, não é só no básico e secundário, também no superior. A desvalorização da parte dos governos tem sido criminosa, com alguma argumentação que tenta culpar os professores pelos problemas da escola pública, quando eles são os principais responsáveis pelos avanços no ensino. Depois a incerteza de condições, instabilidade e os baixos salários são fatores destabilizadores. Tenho duas sobrinhas professores e vejo a angústia que é estar à espera de colocação. Os professores têm sido muito maltratados e achincalhados pelos governos. Os alunos veem esta imagem que é transmitida dos professores e têm tendência a usar essa imagem que lhe é apresentada.

Foi estudante numa fase mais avançada da sua vida. Sente que a escola está preparada para a formação ao longo da vida?

Neste momento sinto que estamos a andar para trás, em relação ao tempo em que fiz a minha licenciatura (1995-2000) e o doutoramento (acabei há seis anos). Aquilo que vejo é que há muito menos ofertas para os trabalhadores estudantes e até as condições nas empresas e no ensino estão piores. Mas claro que, comparado com a minha infância e juventude, as condições agora estão muito melhores.

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