120 mil crianças sofrem com falta de comida

Pobreza. Segundo dados do INE existem mais de 1,9 milhões em risco de pobreza. Crise arrastou mais 35 mil crianças para uma situação de carência alimentar

Só no ano passado cerca de 120 mil crianças teriam passado fome se não tivessem o apoio do Banco Alimentar, um aumento de mais de 35 mil crianças face ao registado antes da crise, em 2008. O número foi cedido ao DN pela presidente da instituição, Isabel Jonet, que garante que um terço das 355 749 pessoas que receberam alimentos do Banco Alimentar contra a Fome em 2013 são crianças.

Apesar de ter havido uma quebra das pessoas assistidas (em razão da quebra do que foi recolhido) Isabel Jonet garante que não "param de aumentar as pessoas que pedem ajuda. De pessoas que já estavam desempregadas e numa situação má, mas que agora perderam o subsídio de desemprego e passaram a precisar de comida". E acrescenta: "Se há alguém que tem rendimento no agregado, utiliza-o para pagar dívidas e depois fica sem dinheiro para comer e recorre ao Banco Alimentar."

Como não existe um levantamento oficial das crianças que passam fome em Portugal, os dados do Banco Alimentar serão os que mais se aproximam da realidade. Já no final de 2013 um relatório da ONU - que tinha por base dados fornecidos pelas instituições ao comité português da UNICEF - alertava que "28,6 por cento das crianças portuguesas estavam, em 2011, em risco de pobreza" e que muitas não tinham acesso aos "mínimos" da alimentação, educação e proteção social. A situação ainda terá piorado nos últimos dois anos, já que as crianças são arrastadas pelas famílias quando estas entram numa situação de pobreza, uma realidade que tem aumentado.

Dois milhões em risco de pobreza

Em março deste ano foi a vez de o Instituto Nacional de Estatística divulgar que a percentagem de população portuguesa em risco de pobreza subiu para os 18,7% em 2012. Dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento demonstram assim que há 1 961 122 portugueses nesta situação. Este é o valor mais elevado registado desde 2005 e atingiria metade dos portugueses se não existissem prestações sociais. A taxa é calculada tendo por base a percentagem de população cujo rendimento equivalente se encontra abaixo da linha da pobreza, que está definida como 60% do rendimento mediano por adulto (409 euros, em 2012).

Eugénio Fonseca alerta ainda para o facto de os dados oficiais serem muito atrasados, não refletindo a real situação. Que ainda é pior, pois a pobreza paira sobre a vida de um em cada quatro portugueses. "O INE dá os dados com muito atraso e às vezes os critérios não refletem a realidade, mas nós que estamos no terreno sabemos que a pobreza é superior aos dados oficiais", comenta Eugénio Fonseca. A Cáritas lembra ainda o estudo do Eurostat que aponta que 25,3% da população portuguesa, mais de 2,6 milhões de pessoas, estão em "risco de pobreza e exclusão social". Em 2013 - tendo como amostra relevante a ação da Cáritas no terreno - a situação ainda terá piorado face ao ano anterior.

Cáritas sem capacidade

O número de pessoas acompanhadas pela Cáritas aumentou 33% em 2013 (mais 12 712 pessoas que em 2012), o que significa que a instituição apoia 52 636 portugueses. E não são mais porque não há meios para isso. Eugénio Fonseca explica que na Cáritas "a capacidade de resposta é limitada, pelo que o aumento das famílias a necessitar de apoio não se traduz muito em números estatísticos".

Neste momento, "a Cáritas só acompanha 45% dos casos que aparecem", remetendo os restantes "para outras entidades". Isto significa que mais de cem mil pessoas foram bater à porta da Cáritas. Que a abre sempre. "Todas as pessoas são atendidas. Se têm fome, damos-lhe comida no momento. Mas isso é atendimento, que é diferente de acompanhamento", conclui.

O principal problema das pessoas que pedem ajuda à Cáritas - de acordo com o Núcleo de Observação Social - é, naturalmente, a falta de rendimento (75,77%). O que tem crescido desde o início da crise é a percentagem de pessoas em que o desemprego motivou o pedido de ajuda à Cáritas: Mais de metade (52,41%) apresentam a falta de trabalho como principal problema. Seguem-se os problemas de saúde, que afetam 26% das pessoas acompanhadas.

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