12 opiniões para reinventar Portugal

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa usou uma expressão que fica no ouvido. Como escutaram uma dúzia de portugueses esse apelo à (re)inventividade?

A reação da sociedade civil é mais favorável ao discurso de Ano Novo do Presidente da República do que critica. Feitas as contas, em doze opiniões de vários setores apenas três diminuem a importância de ser preciso reinventar Portugal. A razão é simples, os 900 anos de História e a integração na União Europeia, que reduz a margem de manobra nacional. No entanto, a questão da insegurança vivida pelos incêndios e a falha do Estado está sempre presente. E não faltam propostas para avançar nessa reinvenção, muitas vezes além das áreas em que trabalham.

António Bagão Félix

Economista

Estamos na Europa...

A expressão do Presidente é muito interessante do ponto de vista político-literário, mas tenho dificuldade em entendê-la porque um país com 900 anos não precisa de se reinventar antes de se fortalecer. Tento compreender a ideia, no entanto considero que precisa de ser desenvolvida. Reinventar em que aspeto? Do sistema político, do económico, do social... Estamos na Europa. É decerto uma frase para ser um bom título de jornal, contudo o que o país precisa é de uma administração pública robustecida e qualificada, que não precise de constante outsourcing. Ou seja, respeitável e que se faça respeitar pela sua autoridade em vez de se ter desqualificado do ponto de vista técnico e capturada por lógicas excessivamente partidárias. Essa, sim, seria a grande reinvenção porque precisamos de um Estado que faça o que é importante.

António Pedro-Vasconcelos

Cineasta

Uma frase à Pessoa

Sendo uma frase literária com algum impacto e que poderia ter sido dita há muitos anos tanto por Fernando Pessoa como por Almada Negreiros e que em si não quer dizer grande coisa. Por outro lado, a frase podia aplicar-se à Europa - que precisa de ser reinventada - e, diria mesmo, ao mundo inteiro. Há uma consciência clara de que o mundo está desnorteado e é necessário reinventar, porque muito daquilo em que assenta a nossa civilização deve ser reciclado. O que o Presidente referiu é coisa fácil de dizer, o que não significa que a resposta seja de conformismo pois há muita coisa mal. É uma frase retórica, apesar de quando nos lembramos dos fogos não devemos aceitar anos de incúria que propiciaram a tragédia. O que é preciso é recuperar e não é pouco, mas só acontecerá com inteligência e coragem. Precisamos de um Estado mais competente para suscitar uma melhor sociedade.

Eduardo Lourenço

filósofo

Visão messiânica

Concordo que se possa falar de reinventar para todos os países que têm uma história e uma evolução perpétua em que estamos sempre nessa aposta connosco próprios. Neste momento, vivemos sob uma perspetiva mais otimista do que nos é habitual, afinal somos um povo muito pessimista desde há séculos, com uma visão quase messiânica que nos pode até ter salvado de muita coisa. No entanto, estamos mais otimistas do que muitos países, ainda mais com um Presidente que tem a perspetiva que os portugueses precisam e gostam. O pior é o serviço prestado à maioria dos cidadãos pelo Estado.

Guilherme Figueiredo

Bastonário da Ordem Advogados

Identificar o conceito

O Presidente tem razão e a reinvenção é sempre necessária, bem como colocar várias matérias sobre a mesa para que se as possa melhorar. Acho que deve prestar muita atenção ao que referiu sobre o ordenamento do território, mas é fundamental reinventar o Estado de direito democrático social para que a sustentabilidade económica do país não seja afetada enquanto se melhora a situação das famílias. Também se deve equacionar a área da justiça, principalmente colocar várias questões em crise: discutir a jurisdição autónoma administrativa e fiscal; a existência de dois supremos tribunais, bem como de dois conselhos da magistratura; avaliar a justiça de proximidade; a existência de tribunal, centro de saúde e CTT a nível local; uma ação política na Assembleia da República mais ligada ao cidadão e à cidadania e uma atuação legislativa menos engajada, além das questões da ética de serviço face aos interesses políticos. O Presidente tem razão, mas teremos de identificar esse conceito de reinvenção.

Manuel Aires Mateus

arquiteto

Exemplo de inclusão

Acho que sim, que Portugal deve reinventar-se até porque tem de ser um exemplo de inclusão e de igualdade. Esse é o nosso único caminho. Considero que o setor social precisa de muito empenho porque é o que está pior. No entanto, este é também um desígnio para a Europa e Portugal tem de ser um exemplo dessa ideia de Europa. A nossa única possibilidade é através de uma ideia de superioridade social pensada.

Manuel Alegre

Poeta

Fetichismo das palavras

Um país tão antigo como o nosso não precisa de ser reinventado. Há um certo fetichismo das palavras e como o Presidente disse isso, agora toda a gente fala de reinvenção. Sendo um dos países mais antigos da Europa, o que necessita é ser amado e respeitado, não ser reinventado. Existem várias áreas em que é preciso mudar a situação e uma delas é a do Serviço Nacional de Saúde, que precisa de uma nova lei que refunde o sistema em vez de o reinventar.

Maria João Valente Rosa

Demógrafa

É um óbvio

Diria que sim, que é um óbvio. Portugal de precisa de se reinventar, ou antes inventar-se porque há vários aspetos com que o país convive muito mal e causam grande angústia às pessoas. Fora das áreas mais referidas no discurso, há uma que destaco na sociedade porque está a marcar o nosso presente e ainda o fará muito mais no futuro: o envelhecimento demográfico. É uma tendência porque seremos uma sociedade mais envelhecida e diz-se que é preciso travar esse processo e nos adaptarmos. No entanto, o necessário é inventar uma nova forma de lidar com esta tendência demográfica. Como Einstein dizia: os problemas que enfrentamos hoje nunca podiam ser resolvidos com o mesmo pensamento de quando surgiram.

Maria Filomena Mónica

Socióloga

Defeitos ancestrais

Precisar, precisa; que seja possível, não. Temos defeitos ancestrais como a pobreza endémica, empresários dependentes do Estado, Estado omnipotente, fatalidade em relação às desgraças, até a falta de pontualidade. No que me diz respeito, as universidades tentaram reformar-se após o 25 de Abril e voltou tudo ao mesmo, pois são galinheiros sem qualidade onde se metem os filhos, netos e até os bisneto no futuro. O que me custa mais é a sensação de que pagamos impostos para um Estado que não dá segurança ou o que diz respeito à vida dos portugueses. Nunca mais deverá ser possível morrerem 111 pessoas como nos fogos do verão. Fez muito bem em ser operado num hospital público.

Maria Manuela Mota

Cientista

Pensar a 20 ou 30 anos

Portugal precisa sempre de se reinventar, como todas as nações. Devemos pensar de forma global no que queremos para o país daqui a 20 ou 30 anos e estar sempre a fazer esse exercício. O discurso do Presidente foi nesse sentido, sem esquecer de como o país falhou de forma incrível na questão da segurança das pessoas no caso dos fogos. Na área da ciência também se deve reinventar de modo a que, ultrapassando o limite temporal da legislação, se pense como vamos atingir os objetivos e com que modelo de país e de sociedade o queremos fazer.

Margarida Marinho

Atriz

Um príncipe do povo

É preciso em absoluto que o país se reinvente e uma das mudanças que foi muito importante em 2017 tratou-se da própria comunicação presidencial. O Presidente, em si mesmo, foi demonstrativo do que é possível fazer para quebrar a barreira da comunicação entre as estruturas políticas e o povo. Tem demolido muitos muros e o que fez nesta área transforma-o num príncipe do povo - à semelhança da Diana de Gales -, que nos transporta para a realidade concreta. São muitas as áreas que necessitam de mudar, mas destaco a do ordenamento do território. Não foi por acaso o que se viu acontecer com os incêndios. Precaver leva muito tempo e é preciso mudar a mentalidade e trabalhar a longo prazo.

Miguel Guimarães

Bastonário da Ordem dos Médicos

Refazer e reformar

Concordo com a mensagem no sentido em que reinventar é fazer certas reformas. O discurso elogia muitas das medidas em que o Governo parece ter sido bem sucedido ao nível da economia e das finanças, mas falta referir várias áreas importantes para a sociedade, nas quais é necessário mais investimento: saúde e segurança, por exemplo. Reinventar será antes de mais refazer e reformar e a palavra usada pelo Presidente pode levar as pessoas a pensar em algo mais complexo do que a necessidade de certas reformas essenciais. De lembrar que o país está a duas velocidades, essa da economia e das finanças que está a correr bem aparentemente, e outras, como a da segurança com dificuldades, e onde falta investimento e existem as mesmas dificuldades que na área da saúde. Quanto à questão dos fogos, que vai marcar o país por décadas, ainda falta saber responsabilidades, como é o caso das do INEM.

Raquel Varela

Historiadora

ânimo para trabalhar

Acho que Portugal precisa de ser reinventado e em muitos setores. Dou um exemplo, o do trabalho. É o que move a sociedade e não estão resolvidas as suas questões fundamentais, pois passamos a vida em autossatisfação enganada. Dou como exemplo, claro que bastante diferente, a estagnação da União Soviética. Que não se devia ao pleno emprego e à segurança no trabalho mas pela ausência de liberdade. Que é a realidade em curso nos locais de trabalho portugueses, impedindo muitos de arriscar e levar à desmotivação. Não podemos ter um país que todos os dias acorda de manhã com a informação sobre as bolsas quando o número de acionistas em Portugal é reduzidíssimo e não se discute se as pessoas estão animadas para trabalhar.

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