Uma "amizade indestrutível" de olhos postos no futuro

A visita de Estado de três dias dos reis de Espanha a Portugal ficou marcada por um discurso de afetividade. No Porto, Felipe VI apelou à cooperação entre empresas portuguesas e espanholas

Ao segundo dia da visita de Estado a Portugal, os reis de Espanha desceram do Porto a Lisboa, mas sem variações no tom afetivo que tem marcado a estadia de Felipe VI e Letizia. A norte, o Presidente da República falou pelo "coração de todos os portugueses", testemunhando o "carinho" pelos monarcas espanhóis. A sul, foi Fernando Medina a agradecer ao rei o "cuidado e afeto que tem colocado na relação com Portugal". Num e noutro caso, as palavras estenderam-se das cerimónias oficiais ao aplauso nas ruas.

Marcelo Rebelo de Sousa voltou a fugir ao protocolo, desta vez com um discurso de improviso para dizer o que lhe ia "no coração". "E o que vai no coração do Presidente da República Portuguesa é o que vai no coração de todos os portugueses, uma admiração e um carinho antigos por vossas majestades", afirmou no almoço oferecido aos monarcas no Palácio da Bolsa. Os portugueses confirmam. Houve quem faltasse às aulas e quem fosse de propósito ao Porto para ver Felipe VI e Letizia.

"Espanha é um caso especial para Portugal", disse o chefe de Estado português, que se afastou do protocolo, "que impõe intervenções escritas". A forma "calorosa" como os reis foram recebidos permite dizer que foi "acertada a escolha de iniciar por uma vez uma visita de Estado pelo Porto".

Teresa Matos e quatro amigas, alunas do curso de Engenharia e Gestão Industrial na Universidade do Porto, não podiam estar mais de acordo. Faltaram à aula de Macroeconomia para ver os reis junto ao Instituto de Investigação e Inovação em Saúde: "É algo que não acontece todos os dias. E é bom que as visitas não fiquem confinadas a Lisboa. "Como não chegou a tempo à Avenida dos Aliados, na segunda-feira, Ana Maria Moura, de 72 anos, acordou bem cedo, ontem, para ver os reis. Vive em Freixo de Espada à Cinta e tinha uma consulta hoje no Porto, mas viajou dois dias antes porque é uma "seguidora das monarquias": "Gosto muito do rei. É uma figura imponente."

Depois de visitarem o Parque da Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto e o I3S, os reis seguiram para o almoço com empresários portugueses e espanhóis no Palácio da Bolsa, onde Felipe VI "elogiou o "esforço, a tenacidade e o sacrifício" feitos que permitem agora "começar a vislumbrar o fim da crise económica" e destacou as possibilidades de cooperação entre empresas portuguesas e espanholas em "mercados terceiros".

Em Lisboa, onde recebeu as Chaves da Cidade e assinou o Livro de Honra, Felipe VI sublinhou a "secular relação de proximidade e boa vizinhança" entre Portugal e Espanha. Foi assim "em tempos difíceis para as duas nações" e foi-o também para a própria família real espanhola, sublinhou o monarca (Juan Carlos, pai do atual rei, esteve exilado em Portugal durante a ditadura de Franco). Uma "amizade indestrutível" já testemunhada, no mesmo Salão Nobre dos Paços do Concelho, quer por Juan Carlos, quer pelo bisavô Afonso XIII, em 1903, lembrou. Também resultado dessa ligação histórica, o monarca referiu que a capital portuguesa é hoje - e "sem surpresa" - um destino preferencial de cada vez mais espanhóis.

Já o presidente da autarquia, Fernando Medina, apontou os passos que os dois países podem dar para uma "construção conjunta do futuro" - no investimento, no comércio e no turismo. Mas também na "reconstrução do projeto europeu" através de uma "agenda reformista que responda às consequências da crise financeira, ao imperativo civilizacional de salvar os refugiados". Para o autarca, Portugal e Espanha têm um "papel central" no debate que se trava atualmente entre a "tolerância e o ostracismo" porque "melhor do que outros entendem o valor da abertura e do cosmopolitismo". "Na história fomos grandes quando nos abrimos e caímos quando nos fechámos", afirmou Medina.

Antes de deixar os Paços do Concelho, Felipe VI e Letizia ainda ouviram dois fados pela voz de Cuca Roseta. Na rua, Aldina Correia não deu por mal empregue as horas que tirou para ir ver os reis de Espanha: "Não é por acaso que dizemos "nuestros hermanos" , não são uns reis quaisquer, o relacionamento entre Portugal e Espanha é muito bom". Maria Adelaide, 78 anos, avança motivos mais prosaicos: "Vim vê-los, que são um casal muito bonito".

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