Médicos com média de 18 no curso sem acesso à especialidade

Falta de vagas fez com que jovens médicos com pior nota no temido exame de escolha múltipla - Harrison- ficassem de fora

Quando entrou para a faculdade de medicina, em 2009, Marta estava longe de imaginar que, quando acabasse o curso, não teria vaga na especialidade. "Sinto-me indignada. Vou estar um ano parada, numa altura em que queria evoluir. Nunca ninguém nos disse que isto podia acontecer", diz ao DN a médica recém-formada. Marta terminou o curso com média de 15, mas a prova nacional de seriação, mais conhecida como Harrison, não correu bem. Teve 39% no exame que estabelece a ordem pela qual os médicos se candidatam. Está nos primeiros lugares da lista dos 158 médicos que ficaram impossibilitados de concluir a sua formação este ano, alguns com médias de final de curso de 18 valores. A estes juntam-se 213 que desistiram. Resta-lhes exercer como tarefeiros, repetir o exame e tentar no próximo ano ou emigrar.

Marta realizou a prova nacional de seriação em novembro do ano passado. Nos meses anteriores, estudou afincadamente cinco especialidades: gastrenterologia, pneumologia, cardiologia, hematologia e nefrologia. Havia muito para decorar. O exame tem um peso enorme na carreira, pois é a única forma de aceder à especialidade. Mas é bastante criticado pelos médicos recém-formados ouvidos pelo DN. "Não avalia a capacidade de sermos médicos. Avalia a aptidão para marrar e decorar coisas até ao limite. Ter melhor ou pior nota significa ter ou não facilidade em memorizar [o Harrison"s principles of internal medicine]", explica.

Desde os anos 70 que o tão temido Harrison é usado em Portugal como prova nacional de seriação. "O exame não avalia corretamente se alguém está habilitado a exercer medicina. Avalia apenas a capacidade de memorização", reforça André Fernandes, presidente da Associação Nacional dos Estudantes de Medicina (ANEM). Daí que alguns médicos "com uma boa classificação de final de curso", não tenham iguais resultados na prova. É o caso de David Pires, Diogo Gregório, Ana Pires e Erika Fernandes, por exemplo, que terminaram o curso com média de 18 valores, mas tiveram menos de 39% na prova nacional de seriação, pelo que ficaram sem acesso à especialidade.

No dia do exame, Marta deixou-se levar pelos nervos. Resultado: 39%. "Não correu bem, mas em anos anteriores seria suficiente para entrar na especialidade. Estou nos primeiros lugares da lista, porque antes de mim desistiram mais de 200". A jovem tem pela frente mais alguns meses a "estudar arduamente" o Harrison. "E não ponho de lado a hipótese de emigrar para fazer a especialidade."

Quem ficou de fora pode exercer como médico indiferenciado, repetir o exame ou emigrar para tirar a especialidade no estrangeiro. André Fernandes considera que nenhuma das três opções é benéfica. A primeira "não é positiva para o sistema de saúde", a segunda "implica um agravamento do problema no próximo ano" e a emigração leva a um "desperdício do investimento feito na formação".

Na opinião do representante, não faz sentido que as faculdades deixem os candidatos entrar, se depois não lhes dão a possibilidade de concluir a formação. Para a ANEM, "é crucial que [as entidades competentes] tomem medidas, no imediato para maximizar as capacidades formativas pós-graduadas minimizando, a curto prazo, o impacto negativo da má gestão que temos vivenciado." Por outro lado, a associação lembra que "a génese do problema encontra-se no desproporcionado aumento dos ingressos nos cursos de Medicina, que continuarão a resultar em graves problemas quer com a incapacidade formativa das escolas médicas, colocando em causa a qualidade do ensino ministrado, bem como a dignidade dos doentes, quer com a posterior falta de vagas para especialização para todos os médicos formados."

Desde 2011 que entram nas faculdades de medicina cerca de 1800 alunos por ano, número ao qual acrescem mais de 300 que vêm do estrangeiro. "Vamos continuar a ter mais de dois mil médicos por ano a concorrer. Não temos capacidade para absorver todos os que saem das faculdades de medicina", alerta João Paulo Farias, presidente do Conselho Nacional de Internato Médico (CNIM). No ano passado, 114 médicos ficaram sem especialidade. A estes juntam-se os 158 que este ano não tiveram vaga e mais de 200 que desistiram. "É um problema que se vai avolumar."

Para garantir que mais médicos ingressam na especialidade, o CNIM e a Ordem dos Médicos vão reunir-se "para planear e criar um mapa de vagas de forma a conseguir o maior número de vagas possível, sem pôr em risco a qualidade". Embora muitos hospitais já tenham o número limite de internos, João Paulo Farias diz que será feito um esforço.

Com a colaboração da ACSS e do Ministério do Ensino Superior, o Conselho espera também que haja uma planificação das necessidades do País a longo prazo, "para ver se é preciso reduzir o número de entradas nas faculdades".

Há alguns anos que se fala em introduzir uma nota mínima nas provas de seriação para o acesso às especialidades, uma vez que, segundo as regras atuais, qualquer médico pode aceder, desde que existam vagas. Para o presidente do CNIM, é uma medida que faz todo o sentido, mas o representante dos alunos discorda. "Todos os candidatos que concluíram o curso já são médicos. A nota mínima servirá para justificar a falta de vagas", frisa André Fernandes. Um novo exame deverá ser introduzido, mas não antes de 2018. João Paulo Farias adianta que "provavelmente, o modelo da próxima prova será muito mais prático, mais baseado em situações clínicas reais."

A Ordem dos Médicos lamentou, em comunicado, a impossibilidade de colocação de quase 160 candidatos, "uma inevitável consequência do elevado número de médicos formados em Portugal, a que se somam as centenas de médicos, de várias nacionalidades, que imigram ou regressam a Portugal com o objetivo de aqui fazer a sua especialidade." Por isso, a OM apela à "necessidade da diminuição do numerus clausus nas Faculdades de Medicina portuguesas, usando os mesmos critérios que se utilizam para todos os outros cursos, pois estão ultrapassadas as capacidades formativas pré e pós-graduadas".

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