"Um homem de bem a ser cilindrado"

Quem é Joaquim Pais Jorge, o secretário de Estado do Tesouro que está demissionário?

A vida de Joaquim Pais Jorge está cheia de ironias. Por exemplo, a de ter negociado, pela Estradas de Portugal, uma série de contratos de concessão com Sérgio Monteiro, hoje secretário de Estado dos Transportes, que então representava os privados. Pais Jorge, conta alguém que assistiu a algumas reuniões, terá sido até "muito duro" com o seu atual colega de Governo, que agora reclama poupar fortunas na renegociação desses contratos, apelidados pela maioria PSD/PP de "ruinosos" (e até criminosos - ou o relatório da comissão parlamentar não tivesse sido enviado para o MP).

Afinal, foi durante o Governo de Sócrates que, após 19 anos no Citibank, de onde saiu em 2009 (no pico da crise financeira mundial, quando o banco americano foi resgatado), Pais Jorge se estreou no sector público. Teve na Estradas de Portugal, então dirigida por Almerindo Marques, a responsabilidade do departamento económico e financeiro da direção de concessões. No seu CV, lê-se : "Membro das comissões de negociação dos contratos das concessões Interior Norte, Beira Interior, Algarve, Norte Litoral, Douro Litoral e Litoral Centro." É aí que Maria Luís Albuquerque, enquanto secretária de Estado, o vai buscar em 2012 para a presidência da Parpública, de onde saiu, há um mês, para ocupar no Executivo o lugar da entretanto ministra, que lançara no início do ano a "bomba" dos swaps. Bomba que determinou a saída do Governo de três secretários de Estado, por terem estado envolvidos na negociação desse tipo de contratos enquanto administradores de empresas públicas de transportes.

Sem ligação conhecida ao PSD ou ao PP - será quando muito "simpatizante" do primeiro, diz um amigo - este licenciado em Gestão de Empresas pela Católica, nascido em 1963 numa família em que a banca prepondera (o pai, Eusébio Jorge, de origem indiana e licenciado em economia, trabalhou na área; o irmão Carlos está na administração do Banif e a mulher é funcionária do Banco de Portugal) era sobretudo visto como um quadro técnico. E se ontem não era o melhor dos dias para lhe fazer o perfil - ninguém quis ser citado - nem ante as suas "inconsistências" os entrevistados, nenhum deles conotado com o atual Governo, são contundentes. "Foi apanhado no fogo amigo de quem quis fazer politiquice"; "Bem cotado em termos de competência técnica e até moral"; "Excelente pessoa, trabalhador"; "Um homem de bem a ser cilindrado". Há até quem se intrigue com a forma como este "bom garfo", que também gosta de cozinhar e de veranear na Areia Branca, chegou ao radar de Maria Luís Albuquerque. E como foi possível que as implicações da sua atividade no Citibank não surgissem como um óbice.

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