Soares sugere nomeação de novo Governo sem eleições

O ex-Presidente da República Mário Soares considerou hoje que o executivo liderado por Pedro Passos Coelho está "moribundo" e sugeriu que o chefe de Estado nomeie um novo Governo sem recurso a eleições antecipadas.

A posição do fundador do PS, antigo primeiro-ministro e membro do Conselho de Estado, foi assumida após presidir na Fundação Mário Soares à inauguração de uma exposição de fotografias de Ingeborg Lippman, intitulada "Um olhar sobre Portugal".

Questionado sobre a atual situação política do país, Mário Soares afirmou que o atual Governo de coligação PSD/CDS "está moribundo".

"Se o Governo não se sente moribundo é porque não tem sensibilidade. Se o Governo tivesse sensibilidade talvez se demitisse, mas como não tem sensibilidade não se demite por enquanto. Mas devia demitir-se, como já devia ter demitido o senhor [ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares] Miguel Relvas e não demitiu", referiu o ex-Presidente da República.

Confrontado com a gravidade de um cenário de crise política em Portugal, num momento em que o país se encontra sob assistência financeira externa, o ex-chefe de Estado deu a seguinte resposta: "Mas se o país ficar assim [como está], acham que Portugal fica bem?".

"A crise está instalada. Querem maior crise do que o país a gritar vão-se embora e a chamar gatunos aos membros do Governo? Foi o que aconteceu no sábado", comentou.

Neste contexto, Mário Soares foi questionado se é possível ser nomeado um novo Governo sem recurso a eleições antecipadas, respondendo que esse cenário é possível "e depende do Presidente da República", Cavaco Silva.

Depois, Mário Soares deixou uma pergunta aos jornalistas, dando como exemplo a forma como foi resolvida a última crise política em Itália.

"Como caiu [o ex-primeiro-ministro de Itália] Sílvio Berlusconi? A pergunta que deve ser feita é quem é o nosso [Giorgio] Napolitano [chefe de Estado italiano], que foi quem provocou essa queda", contrapôs Mário Soares.

Nas suas declarações aos jornalistas, Mário Soares começou por referir que a exposição de fotografias de Ingeborg Lippman apresenta imagens da vida quotidiana do povo português em 1974.

"As pessoas que era adultas nesta época recordam nesta exposição como era Portugal em 1974 e sabem o progresso que o país fez até à atualidade. Como as fotografias aqui patentes documentam, esse progresso foi realmente extraordinário", disse, antes de se referir à presente conjuntura social e económica do país.

"Estamos num momento de crise e está a tentar-se destruir uma parte daquilo que foi feito desde o 25 de Abril de 1974 até agora. Tudo aquilo que é social está a ir abaixo e é por isso que o Governo está numa situação de crise e que os portugueses se manifestaram sábado passado de uma maneira tão espontânea e tão clara", sustentou o ex-chefe de Estado.

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