Rendeiro admite que vendeu obras de arte do seu acervo pessoal ao banco

O fundador do Banco Privado Português (BPP), João Rendeiro, admitiu hoje, em julgamento, que o banco que liderava lhe comprou um acervo de obras de arte, num negócio que envolveu uma galeria, que a avaliou a preços de mercado.

"Vendi ao meu banco", declarou João Rendeiro, em resposta a uma pergunta do procurador do Ministério Público, acrescentando não se recordar se a venda ocorreu em vésperas do primeiro aumento de capital do BPP.

Rendeiro explicou que é "colecionador de arte" e que, antes do negócio, colocara as obras de arte contemporânea em exposição nas instalações do BPP em Lisboa e no Porto, a título gracioso.

O banqueiro não mencionou os valores envolvidos na compra pelo BPP deste "acervo pessoal" de obras de arte, mas notícias vindas a lume no decurso deste processo apontam para um montante na ordem dos 1,8 milhões de euros.

O antigo presidente do BPP, acusado de burla qualificada conjuntamente com outros dois arguidos (Paulo Guichard e Salvador Fezas Vital) vai continuar a ser ouvido em tribunal na próxima terça-feira.

À saída do tribunal, no final da primeira sessão de julgamento do caso Privado Financeiras, Rendeiro não quis prestar declarações aos jornalistas, dizendo apenas que o que tem a dizer será dito perante o coletivo de juízes.

O Ministério Público considera que Rendeiro, Fezas Vital e Guichard "enganaram os ofendidos, todos clientes do BPP e investidores na Privado Financeiras", já que criaram "de forma voluntária, consciente e intencional uma errada convicção acerca da sustentabilidade financeira deste veículo [Privado Financeiras]", lê-se na instrução.

Pelo crime de que são acusados, os arguidos correm o risco de ser punidos com penas de prisão de dois a oito anos, além de coimas de quantias elevadas.

Mais de 30 clientes lesados solicitaram para serem constituídos como assistentes neste processo, que contará com mais de 150 testemunhas (cerca de 30 coincidentes com a qualidade de assistentes).

Francisco Pinto Balsemão e Stefano Saviotti são os nomes mais sonantes da extensa lista de testemunhas que irá depor neste julgamento, que foi o primeiro a arrancar no âmbito do chamado Caso BPP.

Em outubro, uma fonte judicial revelou à Lusa que está em investigação um outro processo "importante" do BPP, relacionado com a primeira intervenção no banco e que incide sobre vários aspectos ligados à gestão, aos clientes e ao fisco. Neste processo principal existem múltiplos indícios da prática de crimes económico-financeiros.

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