Portas desmente Passos, mas coligação é irrevogável

Há duas versões do "verão frio de 2013": Passos diz que recebeu a demissão de Portas por sms e às 15.00; o CDS que foi de manhã e por carta. O "fogo amigo" vindo do timoneiro da coligação irritou o CDS.

O "fogo amigo" vindo do timoneiro da coligação irritou o CDS. Em declarações numa biografia autorizada - lançada ontem em Lisboa - Passos Coelho reavivou o fantasma da "crise do irrevogável", revelando que o líder do CDS Paulo Portas lhe comunicou a demissão por sms no verão de 2013. Na resposta, o CDS desmentiu, oficialmente, o primeiro-ministro. Apesar disso a coligação está no terreno (ver texto secundário) e é mesmo "irrevogável".

Há duas versões do "verão frio de 2013" - como é lembrado no livro - nos parceiros de coligação: Passos diz que recebeu a demissão por sms e às 15.00; o CDS que foi de manhã e por carta. O gabinete de imprensa centrista emitiu ontem uma nota oficial a dizer que "o pedido de demissão do então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros aconteceu na manhã de 2 de julho de 2013, e foi naturalmente formalizado por carta".

Na mesma nota - conhecida uma hora após o lançamento do livro - o CDS acrescenta que Paulo Portas "não falou com a autora do livro, pelo que admite que a mesma tenha incorrido num lapso a que não atribui importância". Já antes, o incómodo do CDS tinha sido transmitido por dirigentes centristas.

"Tiro nos pés", "deslealdade", "vingativo", "não se percebe a utilidade". Estas são algumas das expressões mais utilizadas pelos dirigentes do CDS em declarações ao DN (todas em off, pois Portas - embora na Colômbia - aconselhou prudência às hostes) perante o conteúdo das declarações de Passos, no livro Somos o Que Escolhemos Ser, autoria de Sofia Aureliano, assessora do grupo parlamentar do PSD.

Mais demolidor só mesmo o on do "vice" do CDS Diogo Feio que disse ao Económico que "era bom também que o livro dissesse de que forma o primeiro-ministro informou Paulo Portas sobre o nome da nova ministra das Finanças". E deixou ainda escapar um: "Tudo isto começou com um sms..." Uma alusão ao facto de Portas se ter limitado a responder na mesma moeda a Passos por este o ter informado da escolha da nova ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, também por sms.

Recuemos, literalmente, a esse capítulo ("Verão de 2013: a grande crise") e às polémicas palavras de Passos. "Fui almoçar e quando ia a caminho da comissão permanente, às 15.00, recebi uma sms do Dr. Paulo Portas a dizer que tinha refletido muito e que se ia demitir."

Passos sugere ainda que foi forçado a manter Portas, pelo que simbolizava politicamente: "Não havendo certeza sobre se Paulo Portas ficaria ou não à frente do CDS, era importante que a solução que encontrássemos o incluísse, porque eu não queria que a liderança do CDS estivesse ausente do governo."

Foi isto que irritou o CDS . Um dirigente nacional do CDS disse ao DN que, "no limite, até pode ser negativo é para o próprio Passos Coelho. Parece que está a dar um tiro nos pés. Pode haver quem pergunte: então foi coligar-se com alguém de quem pensa tudo aquilo?"

Um outro dirigente nacional do inner circle de Paulo Portas comentou a situação ao DN, dizendo que "Passos quis contar a sua versão, talvez um dia o CDS conte a sua". Ainda assim estes dirigentes consideram que a coligação "está imparável", que "não haverá leitura política", "nem causa perturbação".

Uma outra fonte da direção centrista disse ao DN que "entre os dirigentes do CDS ninguém percebe a utilidade de desenterrar a questão do irrevogável, sobretudo numa altura em que o líder do PS faz asneira atrás de asneira".

A mesma fonte diz que as declarações de Passos "são vistas como deslealdade e uma aparente necessidade de ajustar contas em público com o líder do CDS". Uma outra fonte centrista deixa no ar a ameaça: "A seu tempo, a outra versão não deixará de ser contada." Como disse um vice-presidente centrista e é subscrito pelos dirigentes ouvidos pelo DN, "a coligação deixou de ser assunto só de duas pessoas [Passos e Portas], não depende do estado de espírito de um ou de outro."

O PSD defendeu-se. Na apresentação do livro, a vice-presidente Teresa Leal Coelho - quando questionada pelos jornalistas sobre o "incómodo" do CDS - desculpou-se: "Não li o livro nem vi as notícias, mas uma coisa é certa: a coligação está forte e determinada em vencer as próximas eleições legislativas."

O assunto esteve tão na ordem do dia que, durante a visita de Estado à Noruega, até Cavaco Silva comentou, remetendo a sua versão dos factos para quando sair de Belém no próximo ano: "Só escreverei as minhas memórias depois de 9 de março de 2016."

E o chefe de Estado é visado por Passos que revela que Cavaco não admitia mexidas no governo sem um "entendimento" que envolvesse o PS de Seguro. Ou seja: condenado ao fracasso. A autora vai mais longe e diz que "Cavaco Silva deixou o governo em banho-maria durante os 20 dias de estéril negociação com o PS, cujo desfecho era, desde o início, absolutamente previsível".

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